Nova série Troia – A Queda de uma Cidade, que adapta a obra universal de Homero para as telas, traz bons momentos mas frustra por seu potencial desperdiçado

Algumas histórias povoam nosso imaginário e, ao longo do tempo, servem de inspiração para diversas outras. Um dos maiores clássicos da literatura ocidental, Ilíada é um exemplo. A epopeia atribuída a Homero, que narra os últimos anos da Guerra de Troia, sempre despertou enorme fascínio de leitores e estudiosos ao redor do mundo, trazendo em sua história o roteiro perfeito para uma grandiosa produção cinematográfica ou televisiva.

Com o filme Troia (2004) como a mais recente adaptação aos cinemas, chegou a vez da obra ganhar sua versão para a TV em uma coprodução entre a Netflix e o canal britânico BBC. Pegando carona no sucesso de diversas séries épicas como Game of Thrones e Vikings, Troia – A Queda de uma Cidade é uma série que se equilibra entre pontos dignos de aplausos e outros que frustram pelo mal uso de uma fonte tão rica. Pretendo falar aqui um pouco dos dois.

Dizem que a primeira impressão é a que fica, certo? Bom, se formos levar isso em consideração no programa, a frustração será imediata. Em seu início, fica evidente o baixo orçamento – em comparação a outras séries épicas de sucesso –, levando o espectador mais exigente a querer desistir da empreitada. Caem aí os primeiros “guerreiros” a investirem na série. Com uma montagem falha e sem ritmo, trazendo cortes mal arquitetados que sugerem estarmos diante de um produto de baixa qualidade, é inevitável o olhar de desconfiança. Outro fator que pode afastar muita gente é a questionável escolha de alguns atores de seu elenco. Aquiles (David Gyasi), o maior dos heróis gregos, aqui é um negro, amante de Pátroclos (Lemogang Tsipa), quebrando completamente paradigmas na tentativa de se mostrar um produto atual. Carecendo ainda da imponência que exige o personagem, o ator até se esforça para convencer na pele do herói, mas seus traços, distantes de como ele ficou marcado no imaginário popular, não acrescentam em nada, apresentando-se muito mais como um problema aos espectadores que conhecem o material-fonte.

Mas acredite, as coisas melhoram. Algumas ousadias são até bem-vindas. Helena (Bella Dayne), por exemplo, que na história original é raptada pelo príncipe Páris – episódio que desencadeia a Guerra de Troia – toma a decisão de embarcar com o jovem amante por conta própria. Com isso, a série atribui mais força e independência à personagem, empoderando-a e a distanciando da simples descrição de apenas mais bela entre as mortais.

Com mais tempo para desenvolver os diversos episódios marcantes da narrativa, a recente produção revela-se aos poucos uma experiência muito mais interessante do que foi o filme dirigido por Wolfgang Petersen em 2004. Também lembrada como uma obra de erros e acertos – a cena do confronto entre Aquiles (Brad Pitt) e Heitor (Eric Bana) é espetacular –, a produção para os cinemas, por ter menor duração, deixa de lado diversos elementos que na série são melhor explorados, contribuindo ainda para que os dramas envolvendo os personagens tenham mais peso.

Exemplo disso é o próprio personagem Páris (Louis Hunter). Conhecemos mais da sua história e seu romance com Helena ganha um engajamento maior do espectador. Diferente do casal interpretado por Orlando Bloom e Diane Kruger, que não apresentavam a menor química e tiveram uma relação mal desenvolvida, as motivações dos personagens na série são mais claras e verossímeis internamente.

Outro fator que merece menção honrosa é todo o seu cuidado com a direção de arte, fotografia e figurinos. Nesses quesitos, o trabalho é competente e, para compensar seu orçamento limitado, a série apela para a criatividade, fechando enquadramentos para mascarar cenários não tão grandiosos e a falta de um número maior de figurantes nas cenas de batalha. As decisões criativas funcionam, tornando o resultado, longe de uma produção hollywoodiana, bem satisfatório.

Troia – A Queda de uma Cidade, ao contrário da história de seus heróis, não ecoará na eternidade. A produção do showrunner David Farr – da excelente minissérie The Night Manager – deixa ao final um gosto amargo por desperdiçar mais uma oportunidade de produzir para as telas um clássico realmente memorável. De qualquer forma, ficam as portas abertas para possíveis novas temporadas – Odisseia, também de Homero, e Eneida, de Virgílio, são duas outras obras que poderiam ser exploradas. Só depende agora das conquistas de audiência que a série irá obter.

Comentários