Série original da Netflix, O Mecanismo, de José Padilha, traz uma leitura polêmica de acontecimentos reais na política brasileira

Desde seu anúncio, O Mecanismo é alvo de polêmicas. Diante de um cenário enfestado de corruptos (de todos os partidos), que, ao receberem larga repercussão na mídia, conseguiram a proeza de fazer o brasileiro voltar sua audiência a um verdadeiro reality show de baratas, José Padilha divulgava sua nova parceria com a Netflix. Mas ficavam claras também suas intenções: enaltecer a Operação Lava Jato, que tem associada a controversa figura do juiz Sérgio Moro como seu principal personagem.

Sem a pretensão de entrar na discussão política que traz a série – que se tornou assunto do momento e, como era de se esperar, tem dividido opiniões – pretendo aqui analisá-la apenas como obra de ficção. E como este é um site essencialmente nerd, posso afirmar que estou em casa para expor minhas impressões, destacando o paralelo que pude perceber entre o novo trabalho do criador de Tropa de Elite e Narcos com o aclamado filme de Christopher Nolan, Batman: O Cavaleiro das Trevas.

Mantendo sempre seu discurso engajado, Padilha tem construído a carreira como um diretor que destila em suas obras críticas a diversas mazelas da sociedade. E isso vem desde seu documentário Ônibus 174, que acompanha o trágico incidente envolvendo o sequestro do ônibus do título, a Tropa de Elite 1 e 2, onde ele cria na figura do Capitão Nascimento o que seria uma espécie de super-herói nacional, que sobe morro e sem medo enfrenta qualquer tipo de bandido. Uma abordagem que, pelas características violentas do personagem, não representa o que todos na sociedade entendem como herói, aproximando-o mais de um justiceiro adaptado à cultura tupiniquim.

Em O Mecanismo, podemos apontar também alguns traços no protagonista Marco Ruffo (Selton Mello) que o associam ao de um herói, que combate o crime em um lugar tão surreal e cheio de impunidade que parece saído de uma história em quadrinhos. E é aí que eu começo meu exercício de pescaria, buscando na série elementos que a aproximam da adaptação de Nolan. Claro, destacando antes de mais nada que o filme do Homem-Morcego, com suas questões éticas e filosóficas, traz uma experiência infinitamente mais inteligente e complexa.

A Gotham City da série – ou “Brazil City”, se preferir – tem vilões por todas as partes e nosso Batman brasileiro, que diferente do milionário Bruce Wayne aqui é um policial assalariado com algumas posses, torna-se uma luz de esperança no combate ao crime. Mas ele, assim como o herói dos cinemas, trabalha de forma solitária. Afastado da polícia por seu temperamento bipolar – e cada vez mais distante da família, passando a esconder desta sua identidade de detetive –, o recluso justiceiro investiga tudo de sua humilde “batcaverna”, que fica num pequeno galpão em um dos cômodos da casa.

Intencionalmente ou não, Padilha chupa mais algumas referências, como o da “Comissária Gordon” Verena (Caroline Abras), ex-colega de profissão de Marco Ruffo, que ainda atuando na polícia, traz uma ligação muito forte com o protagonista.

Tudo é muito rasteiro e a série, talvez para se tornar mais acessível – muitos afirmarão que essa é uma manobra para manipular mentes (e eu não duvido :P) – tenta mastigar os acontecimentos para o espectador. E sim, defendendo as convicções de seu criador, ela soa tendenciosa, alterando datas para sugerir que “o mecanismo” de corrupção de fato surgiu em 2003, depois do governo FHC, e enaltecendo o famoso juiz curitibano Sérgio Moro – na trama trazendo o nome de Paulo Rigo (Otto Jr.) –, que para destacar sua nobre vocação em colocar criminosos atrás das grades, aparece até lendo HQ de super-herói.

Ops, desculpa, acabei entrando um pouco no lado político da coisa. Voltemos à ficção. Como sabemos, todo grande herói tem seu antagonista. E o Coringa de Padilha se chama Roberto Ibrahim. Longe da assustadora atuação Heath Ledger, o ator Enrique Díaz é quem mais se destaca na produção da Netflix. Ele protagoniza um bandido nato, do tipo “mala”, que não se intimida com ameaças e traz sempre um ar de ironia em suas colocações. Os diálogos entre o “palhaço doleiro do crime” e um sempre sussurrante Ruffo não chegam nem aos pés das brilhantes cenas que envolvem os antagonistas de The Dark Knight, mas ainda assim proporcionam os melhores momentos da trama.

Aliás, o trabalho de mixagem de som em O Mecanismo é um ponto decepcionante. Muitas conversas são incompreensíveis e Selton Mello é quem sai mais prejudicado por seu tom de voz. Christian Bale foi bem mais feliz ao adotar sussurros na composição de seu Cavaleiro de Gotham. Pelo menos na produção hollywoodiana, que traz um excepcional trabalho de mixagem, conseguimos entender infinitamente melhor as falas do herói.

Em tempos onde produções baseadas em quadrinhos ainda continuam tendo muito apelo de audiência, Padilha flerta com o subgênero, alterando fatos da recente história do Brasil – como ele mesmo coloca no início de cada episódio – para, segundo o criador da série, causar efeitos dramáticos. Eles até funcionam em alguns momentos, mas com algumas subtramas que não contribuem para o enredo, fracos diálogos e um ritmo por vezes arrastado, é de se lamentar que um de nossos mais festejados diretores da atualidade entregue um produto que está longe de fazer frente a seus melhores trabalhos. Muito menos, ao maior clássico adaptado das HQs para os cinemas.

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