Nova minissérie original da Netflix, Godless se inspira nos faroestes do passado, mas opta por romper com estereótipos e destaca personagens femininas duronas em seu enredo

Popularizado como um gênero extremamente masculino, o filme de cowboy já provou que não precisa ficar engessado à fórmula mocinho-bandido-donzela-em-perigo para ser um bom entretenimento. Algumas produções já ousaram ir além disso, subvertendo a ordem e trazendo mulheres fortes e destemidas como protagonistas. Pois taí que chegou a vez da Netflix sacar sua arma, quebrar estereótipos e transformar as mocinhas indefesas em mulheres pra lá de invocadas.

Com produção executiva de Steven Soderbergh (diretor vencedor do Oscar por Traffic), Godless, nova minissérie do serviço de streaming, traz um esmero que tem tudo para agradar os fãs do gênero. Seu diretor e roteirista Scott Frank (mesmo roteirista de Minority Report e do recente Logan) não parece interessado em apenas emplacar um novo hit para atrair a molecada e, ao dirigir todos os episódios, estabelece uma unidade estética que faz muito bem à série.

Sua premissa gira em torno de La Belle, uma cidadezinha habitada quase toda por mulheres depois de um incidente na mina que matou os homens da localidade. Para complicar as coisas, aparece nas redondezas Roy Goode (Jack O’Connell), ex-parceiro do fora-da-lei Frank Griffin (Jeff Daniels) e que agora está sendo caçado por ele e seu bando.

Muitos dos elementos que consagraram o faroeste estão presentes. Temos o bandidão que todos morrem de medo, o mocinho de poucas palavras, o xerife desacreditado que precisa se provar. O elemento novo é mesmo o de termos um grande número de mulheres ganhando espaço e abordagem diferente em um produto do gênero. Entre elas, quem se destaca é Alice Fletcher (Michelle Dockery), mulher durona que sofre preconceito das demais e acaba por acolher Roy em seu rancho, e Mary-Agnes McNue (Meritt Wever), a líder local que bota ordem na cidade.

Com muitas subtramas ao longo da história, logo fica perceptível que a série teria funcionado perfeitamente como um longa-metragem. Para os fãs dos games, é como se estivéssemos jogando Red Dead Redemption com a diferença de que não podemos pular as missões secundárias e concentrar só na campanha principal. Encontramos por vezes uma enrolação desnecessária e uma enxugada no roteiro teria feito muito bem aos episódios.

Mas os excessos – que certamente foram inseridos com intenção de desenvolver enredos e personagens secundários que continuarão a ser explorados em possíveis novas temporadas – não chegam a prejudicar o resultado final e, sem dúvida, o criador Scott Frank e sua equipe fizeram um ótimo trabalho. Para legitimar a série como um western digno de nota, Frank explora bastante o cenário com belos planos abertos e não deixa de lado a câmera que se movimenta em direção ao rosto de determinados personagens, emulando grandes clássicos. O primeiríssimo plano no rosto de Jeff Daniels (quase irreconhecível e dando um show à parte) por diversas vezes se faz presente para revelar o quanto seu personagem é ameaçador.

Não tão ameaçadoras, mas assumindo papéis que em outras produções seriam encabeçados por homens, as mulheres do mundo de Godless têm de fato um tratamento bem diferente de outros trabalhos do gênero. Mesmo ainda existindo em La Belle aquelas que insistem em se manter como sexo frágil, o destaque, em equilíbrio com os valentões do pedaço, é dado também para as principais personagens femininas.

Trilhando para um esperado desfecho que atende às expectativas – e tem o cuidado de não deixar muitas pontas soltas –, a nova minissérie da Netflix é um tiro certo em meio a um ano irregular para suas produções originais. Mamãe Netflix dessa vez fez o dever de casa direitinho, minimizou os erros e presenteou seus assinantes com um bang-bang empoderado.

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