Já parou para pensar na quantidade de maneiras, todas inacreditavelmente distintas, que existem para se fazer uma pizza? Sabores, ingredientes, técnicas e etc. O mesmo vale para tacos, camarão, churrasco e toda a sorte de alimentos que você costuma ingerir ao longo da semana, todos marcados com a injusta marca de comidas simples, de consumo instantâneo. Porém, no momento em que surge a possibilidade de mergulhar fundo nas raízes dessas “comidas feias”, um novo mundo se abre em sua mente. Essa é a missão de Ugly Delicious, nova série documental da Netflix.

Comandada pelo rebelde chef coreano-americano David Chang, o ex-crítico de restaurante e agora escritor Peter Meehan e do documentarista Morgan Neville (do ótimo A Um Passo do Estrelato), Ugly Delicious é como um manifesto de libertação e aceitação das refeições estigmatizadas que habitam reuniões de família e festas de amigos. Se Chef’s Table, outra excelente série de culinária da Netflix, surge para desconstruir os mitos que cercam a culinária gourmet, aqui o mesmo processo é feito com a “culinária de esquina”. No episódio de Tacos, por exemplo, é possível viajar até o México e assistir mulheres preparando tortillas de maneira rústica, apenas para momentos depois ver os protagonistas e seus convidados fazendo um pedido no Taco Bell. Acredite, existe um poesia singular nisso.

Com tudo que construiu em sua estrelada carreira, David Chang tem respaldo suficiente para definir-se como “uma das pessoas mais esnobes que você irá conhecer”, apenas para momentos depois afirmar com veemência que “odeia elitismos e esnobes no geral”. Parece um pensamento contraditório, mas que logo é explicado através das atitudes de David ao longo dos episódios e de como decidiu tocar sua famosa rede de restaurantes. A curiosidade e rebeldia dele transformam Ugly Delicious em um produto com personalidade.

Aliás, esse estilo “punk” de pensar é refletido nas estruturas dos episódios. Apesar de bastante informativos, em nenhum momento eles tornam-se enfadonhos. São animações pulsantes que surgem no início ou no meio de uma entrevista, assim como tomadas externas pelas ruas dos países visitados, assumindo até uma certa característica de reality show. Essa autenticidade é vista também nas entrevistas. Chang e Meehan visitam chefs estrelados pelo Guia Michelin, não para falar de seus pratos chiques e sim da maneira que enxergam o simples. Isso os coloca no mesmo patamar dos restaurantes menores que você provavelmente nunca ouviria falar na vida, mas que ganham um destaque até maior.

Mas não apenas de cozinheiros vive Ugly Delicious. David cerca-se de nomes famosos como Aziz Ansari, Jimmy Kimmel, Steven Yeun, Ali Wong, David Simon, Gillian Jacobs e Nick Kroll para compartilhar de experiências gastronômicas. E acredite, não existe o glamour das estrelas por todo o lado. Não é uma massagem de ego como a maioria das produções culinárias que pipocam na TV. Além da questão histórica, Ugly Delicious também embarca em temas sociais e culturais. Como no episódio do frango frito, algo comum ao redor do mundo, mas que representa uma marca extremamente negativa na cultura afro-americana. Além de revelações impactantes sobre as origens de algumas iguarias.

Em resumo, Ugly Delicious é a série para quem ama mergulhar no vasto mundo da culinária ou para quem apenas gosta de comer bem de vez em quando, seja num restaurante gourmet ou na pizzaria do bairro. Agora é possível reconhecer que as fronteiras que separam tais estabelecimentos nunca foram tão insignificantes. Em tempos onde a qualidade já não acompanha a quantidade de lançamentos da Netflix, é seguro afirmar que as produções documentais seguem como o melhor atrativo do serviço de streaming.

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