Afirmar que House of Cards mudou a história da Netflix é praticamente chover no molhado. Foi da união dos talentos de David Fincher, Robin Wright e Kevin Spacey que o serviço de streaming, ainda no início de sua trajetória, conseguiu peitar concorrentes de peso como a HBO nas principais premiações da TV. No entanto, a significativa queda de qualidade entre as temporadas colocou em cheque o futuro da série. Cenário que só piorou quando surgiram as denúncias contra Spacey, que logo foi demitido pela empresa. House of Cards deveria acabar naquele momento ou deveria ter um encerramento digno?

Robin Wright, que ganhou importância não apenas na trama mas também nos bastidores, lutou pelo desfecho da história de Claire Underwood. Desde o material de divulgação, ficou claro que a sexta e última temporada da série iria celebrar com pompas o famoso ditado rei morto, rei posto. Frank Underwood morreu, assim como a carreira de seu intérprete, e Claire é quem dá as cartas agora. Algo que já vinha se construindo de anos anteriores. Ela não é mais quem sussurra as ideias, mas quem as coloca em prática e fala para que todos possam ouvir.

Na trama, acompanhamos o início conturbado de seu mandato como Presidente dos Estados Unidos. A rejeição do povo, as ameaças de morte e os entraves políticos de seus opositores. São muitos interesses em jogo e ela nunca esteve tão sozinha. Mas para sobreviver a tudo isso, é necessário enfrentar as dificuldades e contra atacar. Em termos narrativos, a temporada não oferece uma trama rocambolesca. É até simples demais em alguns momentos. A ausência de um objetivo mais concreto acaba incomodando, com determinadas situações perdendo força ao longo dos episódios. Especialmente as que deveriam causar aflição aos espectadores. A tensão é estabelecida, mas acaba sufocada logo em seguida.

Divulgação/Netflix

Outro aspecto que a produção precisou enfrentar foi o fantasma de Kevin Spacey. Algo que acabou perdurando por toda a temporada. Apesar de sua morte, Frank Underwood é sempre uma presença constante nas falas e nas atitudes de determinados personagens. Aliás, muitos dos problemas que Claire enfrenta tem origem nas atitudes de seu falecido marido. É inegável que a ausência de Frank afeta bastante a narrativa, mas é preciso seguir em frente.

Se a trama não empolga em determinados momentos, a última temporada de House of Cards encontra sua força nas atuações. Robin Wright está divina, dominando cada segundo de tela. Utilizando com intensidade os famosos monólogos shakespearianos tão marcantes na série, ela demonstra habilidade e elegância ao enfrentar as diversas maquinações e conspirações políticas presentes nos episódios. São várias facetas apresentadas ao longo da temporada, a maioria capaz de plantar muitas dúvidas na mente do público. Como seus adversários deixam claro, Claire Underwood é implacável.

Os destaques também vão para Diane Lane e Greg Kinnear que interpretam os irmãos Annette e Bill Shepherd, principais adversários de Claire. Por boa parte da temporada, eles conseguem superar e manipular a presidente. Michael Kelly é outro que está muito bem, rivalizando em termos de qualidade com Robin Wrigt. Doug Stamper foi quem mais sangrou por Frank e aqui acaba assumindo a personificação de seu fantasma. A devoção ao ex-presidente beira a insanidade e rende boas cenas com Claire.

Divulgação/Netflix

Mesmo com altos e baixos, House of Cards não perdeu seu esmero técnico. A redução da quantidade de episódios, de treze para oito, deixou a história muito mais enxuta. E de quebra rendeu algumas jóias da TV esse ano, como o quarto episódio. Situado durante um funeral, a câmera vai passeando pelos cômodos da casa enquanto mostra todas as articulações políticas feitas pelos personagens. São sussurros e conversas escondidas, mas que mudam o rumo das coisas a todo o momento. Dá gosto de ver.

Com toda a importância para o sucesso da Netlfix, House of Cards merecia muito mais pompa em seu encerramento? Certamente. Mas a sexta é temporada é, em determinados aspectos, melhor que suas antecessoras. E mesmo com um final agridoce, amarra todas as pontas soltas deixadas pelos Underwood ao longo de sua trajetória. Que a memória de House of Cards dure muito mais do que seis anos.

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