Back to the 80’s! Cobra Kai dá uma aula de como pegar um produto nostálgico e extrair dele o seu melhor

A década de 80 deixou um enorme legado para o cinema. Se puxarmos um pouco pela memória, resgataremos diversas pérolas que hoje são consideradas verdadeiros clássicos do entretenimento. Com muitos desses clássicos sendo revisitados nos dias de hoje, Karate Kid – que já teve um reboot em 2010, estrelado por Jackie Chan e Jaden Smith – retorna agora no formato de série e do jeito que tem que ser: como uma continuação direta da história dos personagens originais.

Lançada pelo canal de streaming por assinatura YouTube Red, a websérie, que se chama Cobra Kai, é uma respeitável reunião de acertos. Sim, pois mesmo sendo uma continuação direta da obra original, poderia trazer algo mal trabalhado que só irritaria os fãs da época e não teria apelo com o público atual. Mas dá para afirmar que seus realizadores acertaram bem no meio da testa.

O primeiro grande “golpe da garça” está no desenvolvimento do roteiro. Cheio de inteligentes sacadas, ele opta por subverter nossas expectativas trilhando um caminho inesperado. A abordagem muda e agora a atenção se volta para Johnny Lawrence (William Zabka), o mesmo bad boy de 34 anos atrás que, atualmente, vive uma vida medíocre, com a bebida como melhor companheira, fazendo pequenos trabalhos para sobreviver. Depois de se envolver em uma briga com alguns adolescentes, e incentivado por um jovem latino que o pede para que ele seja seu professor para se defender dos bullyings na escola, o cinquentão Johnny decide reabrir o velho dojo onde aprendeu tudo o que sabe sobre caratê.

Repare que ainda não mencionei o nome do eterno “Karate Kid” Daniel LaRusso (Ralph Macchio). Isso por que a série começa explorando mais a figura do antagonista de outros tempos. Com sua humanização, fica clara a intenção de que nos identifiquemos com o personagem, que vira sensei de um garoto que lembra muito o Daniel no passado. Mas Johnny não se tornou exatamente um cara cheio de nobres valores e é curioso vê-lo passar sua filosofia “badass” para o suposto mocinho da vez.

Evidente que o roteiro não conseguiria deixar totalmente em segundo plano o personagem de LaRusso e, sem demora, passa a dividir a atenção também com ele e seu núcleo de personagens. Descobrimos que Daniel-San se casou, tem dois filhos e é dono de uma bem-sucedida rede de concessionárias de carro. Tudo corre bem para ele até que o destino dos antagonistas mais uma vez se cruza e, nesse reencontro, os roteiristas dão uma aula de como pegar um produto “made in 80” e extrair dele as melhores situações.

A rivalidade entre Daniel e Johnny está lá, mas a história encontra espaço para desenvolver também outros dramas. Com isso, surgem os personagens de Miguel (Xolo Maridueña), da filha de LaRusso, Samantha (Mary Mouser), e Robby (Tanner Buchanan), filho distante de Lawrence que pouco a pouco vai ganhando mais força na trama.

Cobra Kai aposta na mesma fórmula que fez o filme de 84 conquistar tanto sucesso. A velha pegada oitentista, que trazia histórias simples e despretensiosas, também é uma marca da série. E essa simplicidade acaba sendo refletida em sua produção, que não se destaca em nenhum aspecto técnico, usando uma linguagem aparentemente datada que, ainda assim, reúne com competência o apelo nostálgico e o charme das produções da época

Se apoiando muito no filme original – são inseridas diversas de suas cenas que surgem como flashbacks –, a série se mostra um produto que transcende o fan service. O Sr. Miyagi (Pat Morita), que recebe uma bela homenagem em um dos episódios, talvez reprovasse algumas decisões. Colocar em um torneio de caratê competidores que mais parecem estar lutando capoeira foi de doer, mas como o velho sensei dizia, o segredo está em encontrar o equilíbrio e Cobra Kai compensa com méritos de sobra.

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