De vez em quando surge um episódio que abusa ao máximo do conceito antológico de Black Mirror. E que, consequentemente, acaba sofrendo com a projeção de expectativa dos fãs da série. A bola da vez é Metalhead, que deixa uma questão importante no ar: todos os episódios precisam conter uma crítica ácida de como a sociedade utiliza a tecnologia? E mais: será que Charlie Brooker esgotou seu estoque de grandes ideias?

Filmado em preto e branco, o que o torna um dos episódios mais visualmente interessantes da temporada, Metalhead é rápido e seco. Na trama, um grupo de saqueadores está em busca de um pacote extremamente importante. Vivendo em uma realidade desoladora, seus maiores medos consistem nas figuras de cães robôs assassinos. Quando um deles é ativado, apenas Bella (Maxine Peake) consegue escapar. Desse ponto, tem início uma angustiante perseguição. Revelando seus poucos detalhes em doses controladas, o episódio não se preocupa em estabelecer um pano de fundo para seus personagens. Eles são o que são e precisam lutar para cumprir sua missão e saírem dela com vida.

É a primeira vez que Black Mirror mostra a tecnologia como verdadeira vilã, sem a figura humana por trás de tudo (pelo menos de forma aparente). Claro que os cães robôs foram programados por alguém, mas a sensação é de que a criatura voltou-se contra o criador. Parece a evolução dos conceitos abordados em Engenharia Reversa e Odiados pela Nação. O que fica mais interessante se imaginarmos todos os episódios em uma linha do tempo. Ou pode não ser nada disso e acompanhamos apenas uma mulher lutando para sobreviver. Todos os pontos de vista são válidos em Black Mirror.

Maxine Peake luta para sobreviver em Metalhead. Divulgação: Netflix.

Todo o conceito do episódio passa longe da originalidade, sendo abordado inúmeras vezes em incontáveis ficções científicas ao longo dos anos. Mas a simplicidade da trama e a estética diferente formam uma bela homenagem aos filmes de terror dos anos 50, onde nem tudo precisava fazer sentido e sobreviver era o mais importante. Cortesia do talento de David Slade, que trabalhou com Bryan Fuller em sucessos como American Gods e Hannibal. Aliás, a figura imparável do cão robô assassino em muito lembra o que cansamos de ver na franquia Exterminador do Futuro. Algo que tirou o sono de muitas pessoas no passado.

Porém, mesmo com alguns pontos positivos, é inegável que estamos diante de um episódio bastante problemático. E nem precisa entrar na discussão se é ou não digno de Black Mirror para perceber isso. Nem mesmo a violência gráfica é capaz de deixar uma marca significativa. Com uma duração menor que a média, Metalhead parece um episódio feito para preencher o contrato que Charlie Brooker assinou com a Netflix. Longe de ser um crime, mas deixa um sinal de alerta no ar. Nem sempre quantidade significa qualidade.

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