Distribuída pela Netlfix e baseada na obra de Margaret Atwood, Alias Grace brinca com o espectador enquanto toca em temas sociais importantes.

Se 2017 foi um ano bastante proveitoso para as adaptações das obras de Stephen King, o mesmo pode ser dito das incursões pelos trabalhos de Margaret Atwood. The Handmaid’s Tale conquistou o público, a crítica e diversos prêmios. Transformando-se em uma obra essencial na sociedade. Alias Grace é o outro lado crucial dessa moeda. Passado e futuro distópico mostrando os mais variados aspectos de um problema grande demais para ser ignorado.

Distribuída pela Netflix, a série é baseada na obra de Atwood que, por sua vez, é inspirada em um caso real. Grace Marks é condenada por ser cúmplice de Thomas Kinnear no assassinato de seu patrão James McDermott e da governanta Nancy Montgomery. Décadas depois, o psiquiatra Simon Jordan é contratado por um comitê para analisar Grace e descobrir se ela é culpada ou inocente do crime. Misturando ficção e aspectos da realidade, Alias Grace vai manipulando a mente do seu espectador enquanto entrega uma história densa e repleta de camadas.

Em aspectos técnicos, Alias Grace é primorosa. Os episódios escritos pela atriz e diretora Sarah Polley respeitam o material de origem na medida em que são preenchidos de uma dinâmica essencial para séries de época. Já a direção de Mary Harron (Psicopata Americano) equilibra com uma proeza invejável os elementos estéticos da época e uma estrutura narrativa fluida. Algo importante, tendo em vista que visitamos várias linhas temporais diferentes, tendo nossa atenção testada durante todo o percurso. Tudo isso casado com a bela fotografia de Brendan Steacy.

Ambiguidade é outro elemento bastante presente durante os episódios. Toda a narração da série é feita por Grace, que tece observações sobre suas passagens pelo manicômio, prisão, as sessões com o Dr. Jordan e como ela o manipula das mais variadas formas. Tratando-se da tentativa de desvendar um crime, ter apenas a versão da protagonista não parece ser algo justo. Mas essa é a intenção. Tudo que sai da boca de Grace é confiável? Se servir de consolo, não existe uma resposta certa para essa dúvida.

As atuações são de encher os olhos. Na falta de adjetivo melhor, Sarah Gadon está brilhante. Logo nos primeiros minutos da série, ela vai alternando expressões faciais que condizem com sua narração em off, comentando sobre as diversas personalidades que lhe foram atribuídas ao longo do tempo. Existe uma inocência latente em seu tom de voz e olhar, mas que logo é soterrada por uma malícia nos momentos em que encara a câmera, como se instigasse o espectador. Se houver justiça nesse mundo, sua performance será reconhecida pelas premiações. Outro que também brilha é Edward Holcroft, convicente durante todo o processo de deterioração de seu personagem. De um centrado profissional na primeira cena até uma casca sem alma no fim de tudo. Rebecca Liddiard e Anna Paquin completam o quarteto.

Porém, Alias Grace não é apenas uma investigação de assassinato. É também um estudo sobre as condições deploráveis enfrentadas pelas mulheres naquele período. Especialmente pela hipocrisia que reina em todos os níveis sociais. Onde homens passam impunes por seus crimes, mas as mulheres são demitidas, fatiadas por médicos carniceiros e relegadas ao fundo do poço. Sem contar a violência, que ceifou a vida das figuras femininas mais importantes da vida de Grace. Sempre com a presença masculina no centro da tragédia.

Por isso é tão emblemático perceber como Grace aprendeu com os percalços da vida, manipulando o sistema e as pessoas que o compõem. Chegando ao ponto de pouco importar sua participação no crime, contanto que ela consiga finalmente encontrar algum tipo de paz. Feito esse que dificilmente seria alcançado se Alias Grace não fosse escrita, dirigida e protagonizada por mulheres talentosas.

Apesar do início passar essa impressão, Alias Grace logo abandona o rótulo de obra que busca inocentar/culpar sua protagonista. É um relato sobre a violência física e psicológica contra mulheres, além de um retrato do quanto somos moldados pelo meio em que vivemos.

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