Hidras não costumam ser muito simpáticas. Entretanto, o contato com elas pode ser bem instrutivo. Hércules que o diga. Possuindo corpo de dragão e três cabeças de serpente que em caso de decepamento dão lugar a outras duas – e por aí você pode calcular o problemão que tem à frente! –, elas figuram entre os principais monstros da mitologia grega.

Mas por que começar com elas? Especialmente numa coluna que trata de processo criativo, mercado cultural e cenário artístico nacional? Não existem heróis sem monstros, nem aventureiros sem grandes jornadas ou mesmo admiráveis paladinos sem horripilantes antagonistas. Os filmes que adoramos, os livros que lemos e os jogos que curtimos estão repletos deles.

Levando a comparação mais longe, estudar monstros é estudar desafios, fortalecer músculos, planejar ataques certeiros, sejam eles de espada ou xadrez. Assim, se o que define o nosso panorama nacional é a dificuldade de se produzir arte – e ainda mais transformar isso em renda! –, qual a melhor metáfora para esta tarefa hercúlea senão a de um monstro de três cabeças com hálito e sangue venenosos e uma resistência, para não dizermos resiliência, a ataques ou golpes?

Quem sou eu & o que você encontrará por aqui

Antes de voltarmos à metáfora, um pouco sobre mim e este projeto. Aos que não me conhecem, sou o criador de Brasiliana Steampunk, série literária que reinterpreta os heróis da literatura nacional num cenário retrofuturista. Depois de vencer o concurso Fantasy!, da editora Casa da Palavra/LeYa em 2014, tenho trabalhado para divulgar a série e ampliá-la como projeto transmídia que inclui artes, mapas, audiodramas, jogos e quadrinhos, além da dimensão literária, que inclui contos inéditos e um suplemento escolar. Com ele, pretendemos formar novos leitores e substituir as tradicionais aulas de literatura por encontros mais divertidos e estimulantes.

Fora esses projetos, uma inquietação que sempre tive, mesmo antes de me tornar um escritor profissional, é: como funciona a criatividade? Como artistas, sejam eles escritores ou desenhistas, desenvolvedores de jogos ou criadores audiovisuais, estruturam suas ideias, organizam seus insights, acalmam suas mentes turbulentas e, no decorrer desse processo, transformam sonho em realidade, abstração em materialidade, devaneio em algo que pode ser lido, assistido ou consumido? Estas são as perguntas que norteiam o projeto Bestiário Criativo, um projeto que decorre de três iniciativas.

A primeira delas advém da parceria com o escritor Andrio Santos e com a ilustradora e designer Jessica Lang, com quem desenvolvi o projeto de extensão de mesmo nome na Universidade Federal de Santa Maria, onde sou professor de literatura. De lá, o projeto migrou para o Grupo Epic, coletivo de artistas e profissionais que trabalham com cultura jovem e geek, onde se tornou um podcast chamado Bestiário Cast no qual entrevistamos profissionais e artistas brasileiros sobre suas criações e os desafios de sua produção. Por fim, destaco o convite dos amigos Victor Morais e Rildon Oliver, responsáveis pelo portal CosmoNerd, para uma contribuição regular sobre literatura e arte. Todas essas parcerias originaram esta coluna de periodicidade mensal, que eventualmente poderá contar com textos extras.

Meu objetivo nesta coluna, que será publicada na última semana de cada mês, é discutir a criação de uma trama narrativa ou projeto ficcional com todos os desafios envolvidos, desde a criação e o desenvolvimento de personagens, cenários e antagonistas, até problemas mais práticos como revisão, estilo e apresentação de originais. Como ainda me acho um escritor em formação, apesar de trabalhar com produção textual há muito tempo e ministrar um curso semestral de escrita criativa na UFSM, não pretendo fazer isso sozinho. Ao invés disso, quero usar esse espaço para dialogar com as opiniões, relatos e sugestões de outros criadores, que farão aparições bem especiais por aqui.

A ideia de Bestiário remete aos tomos medievais que catalogam criaturas exóticas e singulares, reais ou imaginárias. Em nosso caso, se trata também de brincar com nossa personalidade estranha e inquieta, ousada e arredia – nerd se você preferir – e tudo aquilo que envolve a criatividade, resultando neste estranho gabinete de curiosidades que todos nós somos ou constituímos. Para terem uma ideia do que vem pela frente, tanto em termos de discussão quanto de criaturas presentes em nosso bestiário, eis aqui o que estamos preparando para a nossa coluna:

  • I Hidra – Bestiários & Relicários (Janeiro de 2017)
  • II Pégaso – Domando a Ideia Inicial (Fevereiro de 2017)
  • III Dragão – Organizando o Ambiente de Trabalho (Março de 2017)
  • IV Ciclope – Lidando com Histórias & Monstros (Abril de 2017)
  • V Esfinge – Encarando Personagens Híbridos & Enigmáticos (Maio de 2017)
  • VI Lobisomem – Construindo Cenários Terrestres & Ficcionais (Junho de 2017)
  • VII Vampiro – Viajando & Sobrevivendo ao Tempo Narrativo (Julho de 2017)
  • VIII Golem – Moldando Palavras & Frases (Agosto de 2017)
  • XI Sereia – Recriando a Música & o Ritmo do Texto (Setembro de 2017)
  • X Autômato – Preparando & Enviando Originais (Outubro de 2017)
  • XI Fauno – Administrando a Vida Literária & as Redes Sociais (Novembro de 2017)
  • XII Hipogrifo – Bestiários Criativos & Cosmologias Imaginárias (Dezembro de 2017)

Gostaram? Então nos acompanhem por aqui e, se desejarem, compartilhem esse texto com seus amigos.

Sobre o que iremos priorizar por aqui

Em sala de aula, sempre digo que não se trata de encontrar “a” fórmula ou “a” técnica correta para este ou aquele projeto. Ao invés disso, aconselho cada escritor ou artista a buscar a “sua maneira”, o “seu estilo”, o “seu modo de trabalhar”, o seu percurso metodológico. Por isso, não esperem aqui a fórmula X ou o segredo Y, pois a criatividade não é sobre isso. Prefiro vê-la, antes, como um passeio de descobrimento e de autodescobrimento, no qual nossas formas de ver o mundo, de apreciar literatura, de interpretar arte e mesmo de interagir com outras pessoas, acabam formando nosso próprio método e estilo. Assim, ao invés de “o” percurso, esperem aqui uma grande quantidade de estilos, sugestões e métodos, que ajudarão você a encontrar o seu próprio.

Entre uma coluna ou outra, pretendo também compartilhar com os interessados algumas experiências práticas, sempre em parceria com outros artistas ou desenvolvedores de conteúdo, que podem tratar de diversos temas, desde os desafios iniciais da criatividade, o uso da internet para desenvolver projetos culturais, as agruras do mercado cultural brasileiro, até o ABC da criação de um audiodrama ou de um cardgame, sempre aludindo à aventura que tem sido trabalhar com Brasiliana Steampunk. Se desejarem temas mais abrangentes, como auto publicação, mercado digital ou financiamento coletivo, podem deixar seus pedidos e sugestões nos comentários.

Entendem agora por que comecei falando de monstros e criaturas exóticas? Numa coluna chamada Bestiário Criativo, o que quero propor a vocês é buscar suas armas de guerra, separar a bolsa de mantimentos, estudar a cartografia da aventura e treinar exaustivamente para não se darem mal quando hidras, ciclopes, vampiros ou lobisomens cruzarem o seu caminho! E acreditem, eles cruzarão, colocando não poucas vezes em xeque seus ideais, seus planos e até mesmo sua sanidade. Mas quem não espera por isso? O que forma um herói ou uma heroína – e todos nós somos os heroicos protagonistas de nossas narrativas fantásticas ou dramáticas – são justamente os monstros, agruras e desafios que encontram em seu percurso.

Ferramentas úteis & algumas palavras de motivação

Neste momento, Hércules encara a Hidra e deseja sair correndo – ou voltar para a cama ou então dar play naquele seriado que deseja reassistir ou sua vontade talvez seja simplesmente desistir do sonho, da jornada, da aventura. E quem não sentiria o mesmo diante de tal desafio? Mas felizmente, nosso herói ancestral tem em seu cinto ou aljava uma série de pequenas ferramentas que podem lhe ajudar.

Entre as diversas armas e utensílios que vamos sugerir por aqui, está a obra de Jeff VanderMeer, autor estadunidense responsável por romances como Aniquilação (Intrínseca, 2014) e A Situação (Tarja, 2010). Ao lado de sua produção ficcional, VanderMeer tem organizado livros bem divertidos e diferentes – para não dizer esquisitos! – como Steampunk Bible (2010) e Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas (Saída de Emergência, 2003). Mas eu destaco aqui dois livros fundamentais – ainda inéditos em português:

O primeiro é Booklife – Strategies and survival tips for the 21st-century writer (2009), livro que discute a rotina de todo escritor e a disciplina necessária à criação e à escrita, além de ressaltar a importância da utilização da internet, das redes sociais e de outros dispositivos tecnológicos para promover e divulgar seu trabalho criativo. Num país como o Brasil, em que a produção cultural ainda é para muitos uma atividade executada depois do horário comercial ou em finais de semanas, é um ótimo compêndio para pensarmos juntos os desafios de toda carreira criativa e a importância de sua profissionalização.

O segundo livro é Wonderbook – The illustrated guide to creating imaginative fiction (2013). Além de visualmente impecável, com mapas, diagramas e ilustrações que dialogam com os exercícios de escrita presentes no volume, VanderMeer apresenta nele uma série de seções que versam sobre criatividade, revisão e ambientação, entre outros temas bem instigantes. Ademais, o livro traz um apêndice muito útil, com entrevistas com escritores, roteiristas e criadores de jogos e outros produtos transmídia.

Algo fundamental a qualquer escritor ou escritora é obviamente a leitura, e por isso serão várias as sugestões que trarei por aqui. Quando possível, priorizarei livros já publicados em língua portuguesa, apesar de muitos volumes estarem disponíveis apenas aos falantes de inglês, francês ou espanhol. A aventura da escrita é também uma jornada por bibliotecas e o estudo de outra língua é sempre bem-vindo. Ora, você não pretende aventurar-se por uma terra distante e perigosa sem dar uma olhada em seus mapas ou sem uma noção mínima sobre seus costumes e formas de comunicação, não é mesmo?

Além de certificar-se de ter um conjunto mínimo de mapas e de um volume, mesmo que pequeno de gramática, o que mais é necessário para a aventura que você está prestes a começar? Depois de separar uma espada afiada que lhe ajudará a enfrentar o monstro da procrastinação, de escolher cordas adequadas para escalar os montes da preguiça e de certificar-se de que atentou às poções energéticas que lhe ajudarão nos momentos mais terríveis da viagem – sobretudo quando receber o silêncio ou uma negativa após enviar seu manuscrito –, o que ainda falta para o início de sua jornada?

Hércules diante da Hidra sabe que ela é perigosa e que suas cabeças decepadas darão lugar a outras, como todo artista sabe que os desafios iniciais ao seu trajeto darão lugar a uma série de outros: Como terminar uma história? Como melhorar um protagonista? Como revisar e aprimorar uma narrativa? Como transformá-la num projeto a ser vendido a uma editora? E ainda, como ser relevante num mercado que lança milhares de livros por mês? Eu não tenho essas respostas. Mas estou interessado em acompanhar você no percurso de buscar por elas, visto que não é diferente no meu próprio caso.

Dessa perspectiva, hidras acabam se tornando criaturas bem simpáticas. E se você não pode vencê-las, que tal aceitar sua natureza múltipla e desafiadora como uma das principais recompensas de seu trajeto ou jornada? Neste Bestiário Criativo, o que tentaremos juntos é aprender com elas e com suas criaturas, monstros e espectros irmãos, seres que nos fazem questionar diferenças, fortalecer motivações e aprimorar habilidades.

Prontos para começar? Nos acompanhem por aqui e, se desejarem, compartilhem esse texto com seus amigos.

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