Criador da animação “BLWARH” conta como foi parar no stop motion.

Curta lançado na noite abertura do Festival Anima Ceará.
Curta lançado na noite abertura do Festival Anima Ceará.

Eu lembro que quando eu era criança, com uns seis anos mais ou menos, me animei quando vi na lista de material escolar o pedido de massinhas de modelar. Eu adorava modelar e assistir ao “Glub, Glub” na TV Cultura, onde passava “Berta, a Fábrica de Brinquedos”. A animação era feita em stop motion com massinha de modelar. Eu adorava! Quando cresci, comecei a trabalhar com audiovisual e percebi o quanto era difícil fazer aquelas animações.

Levi Magalhães, nosso entrevistado desta coluna, é um dos guerreiros do stop motion. Ele é cearense, diretor da Truca Studio e criador da série “BLWARH” que começou como uma web série no YouTube e agora, na abertura do Festival Anima Ceará (veja a programação completa em www.animafestival.com.br), faz a sua primeira exibição pública do filme curta metragem BLWARH Navegando no Deserto.

ANIMALAND: Levi, como começou sua paixão pela animação? Por que você escolheu trabalhar com essa linguagem?

Levi Magalhães criador de "BLWARH"
Levi Magalhães criador de “BLWARH”

LEVI MAGALHÃES: A animação chegou a mim através das séries animadas da Toei Animation, da Warner na TV e os longas-metragens em animação 2D tradicional da Disney e dos Studio Ghibli nas fitas de VHS e nos cinemas. E dessas obras, sempre me despertou a curiosidade: “como eles fizeram isso? é magia negra? são vários desenhos? o computador faz tudo? por onde começo?” entre outras tantas dúvidas. A luz veio na minha formação durante o Curso de Extensão em Cinema de Animação da Casa Amarela, na época ministrado pela professora Mariana Medina, onde consegui as respostas e, ao mesmo tempo, deu consistência a essa paixão. Poxa, na animação você pode criar um universo do zero! Criar suas regras, dar vida a objetos e desenhos estáticos, elaborar histórias completamente surreais, e isso me fascinou de tal forma que me trouxe a confirmação “quero viver disso!”. Claro que essa afirmação veio de um extenso processo, com muitos erros e acertos, mas estar no Núcleo de Animação da Casa Amarela rodeado de profissionais que também vivem disso foi o que me deu o estalo.

ANIMALAND: Quais são os principais trabalhos com animação e o que você aprendeu nesses processos?

LEVI MAGALHÃES: Meu primeiro trabalho com animação foi no videoclipe “Agradecimento” (2013) da cantora Barbara Eugênia e direção do animador Diego Akel, na obra, atuei como estagiário de animação. No processo, vi a execução das etapas de uma equipe de animação, ou seja, pré-produção, produção e pós-produção nas área de som, arte, direção, animação, edição, enfim, tudo acontecendo simultaneamente. Por conta disso, tempos depois, realizei “Vida”, um curta-metragem de animação com técnicas mistas, onde ocupei todas as funções de uma obra animada, contando ajuda apenas do técnico de animação da Casa Amarela na época, Josimário Façanha. Como sempre tive interesse pela área de direção, queria executar todas as etapas – de pré à pós-produção – para entender suas peculiaridades, dificuldades e o tempo, além disso, usei o filme “Vida” como um grande laboratório onde testei um pouco de cada técnicas de animação que estudei durante o curso de animação da Casa Amarela. As produções seguintes vieram cada uma com seus desafios: “Um Conto em cada Ponto” foi minha primeira participação como animador em uma obra seriada para TV, o que me ensinou todo a questão de trabalhar em parceria com uma produtora audiovisual, os prazos e as diferentes métodos de trabalhos elaboração de um curta-metragem; “BLWARH” foi o desafio proposto para, na época, a recém criada “TRUCA STUDIO”, onde nos desafiamos a conseguir elaborar uma web série para o Youtube usando um baixíssimo orçamento e material escolar; e “BLWARH Navegando no Deserto” que é nosso mais recente filme, com patrocínio da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, nossa maior produção, com uma atmosfera e uma equipe imensa.

ANIMALAND: Quais são as dificuldades e alegrias específicas de trabalhar com animação stop motion?

LEVI MAGALHÃES: Stop motion tem suas ramificações de acordo com o objeto animado, ou seja, o stop motion pode ser ramificado em claymation (com massinha de modelar), cutout (com peças recortadas em papel), pixilation (com pessoas), animação com objetos entre outros. Então, cada método tem sua peculiaridade e dificuldade, é bastante complicado comparar “stop motion” inteiro com as outras técnicas de animação. O claymation, por exemplo, tem uma enorme equipe artesanal e adicional por trás, responsável por criar bonecos e cenários muitas vezes enormes, o que aumenta o custo e o tempo da produção, como em Fuga das Galinhas (Aardman Animations) ou Coraline (Laika Studio).  Em BLWARH Navegando no Deserto foi preciso quase 1 semestre para conseguir executar todos os cenários, enquanto em uma animação 2D tradicional um ilustrador consegue realizar os cenários em bem menos tempo.

Mas de uma coisa é certa: o stop motion tem uma camada de veracidade que nenhuma outra técnicas de animação possui. Você dar vida a bonecos, objetos, materiais palpáveis, entrega uma dimensão para o universo que, na minha opinião, trás uma força de “verdade”, e isso que me faz brilhar os olhos para o stop motion. Por exemplo, o “BLWARH” usufrui de materiais escolares para compor toda sua atmosfera, ferramentas que dialogam perfeitamente com o público alvo da série. É como brincar de ser criança, você pode mostrar uma cartolina enrolada, dizer que trata-se de uma espada, e e ela realmente ser uma espada no seu filme, cortar qualquer coisa! As referências que mais utilizo em stop motion são as obras de Juan Pablo Zaramella, PES Animation, Pedro Iua e o Diego Akel.

ANIMALAND: Vamos falar sobreBLWARH”. De onde surgiu a ideia, e quais foram as fases que você viveu até a essa exibição que abre o ANIMA CEARÁ?

LEVI MAGALHÃES: “BLWARH” surgiu como um desafio de produzir uma obra seriada para internet. O CINUCA (monstrinho azul) já existia como logo que desenvolvi para o Cineclube do Núcleo de Cinema de Animação da Casa Amarela (CINUCA) e já almejava em 2015, após concluir o curta-metragem “Bem-me-quer” de trazer esse personagem para alguma aventura que ocorresse na internet nos moldes das séries antigas da TV Cultura como “Pingu”. Nos realizamos o “BLWARH” para o Youtube durante o ano de 2015, lançamos a web serie em outubro do mesmo ano, e tivemos um feedback tão bacana que decidimos buscar o financiamento para um possível filme derivado da obra seriada. Até aquele momento o projeto era completamente independente, com vários altos e baixos, nosso orçamento limitado só permitia compra de materiais simples e baratos, acredito que essa condição foi um dos responsáveis para compor os cenários e personagens com ideias e ferramentas tão simples e criativas com a utilização de materiais infantis e escolares. Em 2016, tivemos a alegria de receber a notícia que nosso projeto de filme tinha sido aprovado pelo Edital de Cinema e Vídeo da Secretaria da Cultura de 2015. Em 2017, realizamos todas as etapas de pré-produção, produção e pós-produção do nosso filme, com uma equipe alegre e incrível. É incrível perceber o quanto o projeto cresceu em 3 anos, o quanto amadureceu e o quanto nos, como profissionais, amadurecemos junto. Hoje, pensamos muito em continuar o processo do projeto e buscar meios de financiar o BLWARH para uma temporada nos canais de TV.

ANIMALAND: Falta gente qualificada para trabalhar com Stop Motion no Ceará, no Brasil? Quais são as ações necessárias na sua opinião para terem mais produções em stop motion?

No Ceará, o número de produções em animação stop motion ainda é baixíssimo e da mesma maneira é o número de profissionais especializados nessa área, porém, a condição é equilibrada. Diferente dos demais métodos, o stop motion é uma área da animação bastante artesanal, ela depende que os realizadores se especializem em ferramentas manuais (marcenaria, costura, pintura, modelagem, etc), ou o contrario, que artistas artesãos se aproximem da animação. Essa é a primeira grande dica para quem procura se especializar nessa área da animação, se aprimorar em métodos manuais. Cada obra de cada diretor tem sua preferência por utilizar algum material, porém, ainda assim é possível perceber, no Ceará, que recentemente apareceram mais pessoas interessadas em se especializar mais na linguagem do stop motion. Em questão de produção a nível nacional, existe um significativo número de obras em stop motion sendo contempladas e financiadas, principalmente em São Paulo, como por exemplo, os projetos de série e longa-metragem do diretor Cesar Cabral

Apesar de alguns anos estagnado nas políticas públicas para área de Cinema de Animação, o Ceará vai dar um grande salto na produção de obras animadas nos próximos anos, em formação de público através do ANIMA CEARÁ – primeira edição de um evento com um imenso número e métodos de curta-metragens – e através dos editais públicos específicos com oportunidade para um número considerável de produções de séries para TV e longas-metragens. A questão trata-se de uma relação diretamente proporcional entre público, obras e profissionais. Ressalto a participação do Fórum Cearense de Animação (FOCA) que luta pelas questões da classe e busca pelo melhor funcionamento dessa engrenagem para tornar o ambiente do audiovisual cearense mais equilibrado e sustentável. Sendo assim, penso que o seguimento natural será de aumentar o número de obras, profissionais e de público consequente, e estaremos lá na busca por cada vez mais espaço do stop motion e outros métodos inovadores de se fazer animação.

Mas é isso, seguimos fazendo animação. Por mais animação nesse país, por mais obras animadas no Ceará!

______________________

Para saber mais sobre Levi Magalhães e Truca Studio acesse:
http://trucastudio.com.br e o canal no Vimeo do Levi https://vimeo.com/levimagalhaes

E para quem ainda não assistiu a série “BLWARH” no YouTube, acesse: https://www.youtube.com/channel/UCYITkX5r1gQOEiK8kLv3Rkw

A estreia do curta “BLWARH Navegando pelo Deserto” estreia na abertura do Festival Anima Ceará, dia 23 de maio, às 19h30 no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza-Ceará.

Comentários