Dia 3 de janeiro comemoramos o nascimento do Pai da Literatura Fantástica Moderna. E tudo começou com a ânsia de escrever histórias que ele gostaria de ler – um sábio conselho para qualquer escritor

Por Rodrigo Passolargo

Hoje é a data de nascimento do Pai da Literatura de Fantasia Moderna. Tolkien nasceu em 3 de Janeiro de 1892 na África do Sul, e teve outros filhos além de tantos Hobbits, Elfos e Homens: John Francis Reuel Tolkien, Michael Hilary Reuel Tolkien, Priscilla Mary Anne Reuel Tolkien e Christopher John Reuel Tolkien (responsável por seu legado até agosto no ano passado). Tolkien foi um ótimo pai todos os anos escrevia cartas de Papai Noel para seus filhos e, um de seus livros mais divertidos, Roverandon, foi escrito para explicar a um de seus filhos o que acontecera a um cachorrinho de brinquedo predileto perdido na praia.

Mas entre tantas histórias, esse humilde pai tinha uma ânsia. E ela foi uma força motriz para o legado que hoje conhecemos. O legado de uma vida.

Tolkien sempre teve um amor pelos mitos e suas representações simbólicas, como as relatadas nos contos de fadas e principalmente os épicos e lendas heroicas. Mas para ele, tudo aquilo não saciava seu coração. Uma grande aflição do Professor era a inexistência de uma mitologia inglesa, a falta de histórias próprias relacionadas a língua na qualidade e carência de complexidade das lendas como outros países, como gregas, românicas, celtas, germânica, finlandesas, essas que muito as influenciou. Mesmo o mundo da cavalaria arthuriana – figura de extrema importância que o levou a escrever A Queda de Arthur – foi naturalizado e incorporado pelo galês Geoffrey de Monmouth (em Historia regum Britannie) e romantizado pelo francês Chrétien de Troyes, o que também não supria essa necessidade de um mito “genuíno” inglês, mesmo contendo o elemento cristão que muito Tolkien apreciava.

Entretanto, a característica cristã nas lendas arturianas era contada de maneira explicita, e conflitava com sua forma de ver os mitos e contos de fadas. Para Tolkien, a arte deveria retratar a verdade e seus erros morais e religiosos não de maneira alegórica (consciente e intencional) e condicionada como existe no mundo primário e no momento atual de sua vida.

Essa foi uma das grandes motivações para Tolkien seguir o próprio conselho: se você não leu a história que gostaria de ler, então escreva-a.

Seu amor pelas línguas o fez identificar porque o Esperanto e outras colangs (línguas criadas artificialmente) estavam mortas: não era a facilidade simplória que deixava uma língua viva. Da mesma forma que as lendas clamam por um idioma para pertencerem e serem repassadas, o idioma torna-se vivo através das lendas que transmite por herança. Unindo amor e necessidade, filologia e mitologia (essas que sempre conversam), eis que a canção de sua subriação começava a criar forma.

Por mais que naturalmente as histórias vêm primeiro, o futuro pai da Fantasia Moderna começou a criar um corpo de lendas associados em diversos níveis, mas que envolvesse a vasta cosmogonia até o romantismo dos contos de fadas dentro de uma propriedade clara e natural essência de seu país. Mas o principal de todo esse corpo mitológico e suas engrenagens eram as próprias histórias que floriam a subcriação.

Seu curso inicia na Música dos Ainur, se desenvolve pelo elfocentrismo em Silmarillion e tem no final da Terceira Era a perspectiva hobbitcentrista. Em todos esses ciclos, o apogeu, destino e queda dos Homens é contada de maneira peculiar, até porque, como dizia Tolkien, o autor é um humano e o público também. Logo, precisa ter sua representação e identificação em seu desenvolvimento dentro do corpo de lendas. Mas os Homens (como raça) não são os principais e desde sua chegada eles estão sempre numa limítrofe do Grande Círculos do Mundo. Ao passo que as histórias ficam menos umbráticas, os homens são abraçados nelas.

Elfos, hobbits, anões não representam parcialmente os Homens, mas é inevitável que seus valores e particularidades humanas não permeiam toda a narrativa mesmo sem um antropocentrismo e descaraterização. Começando com a canção dos grandiosos Valar além do Mar e terminando com pequenos hobbits, Tolkien nos ensina que não precisamos ser Deuses para subcriarmos um mundo tão orgânico como a Terra Média. Não precisamos ser grandes para fazermos grande diferença no nosso mundo que – quem sabe – se tornará mitologia no futuro. “Quando os sábios tropeçam, a esperança vêm dos pequenos”, já dizia Elrond.

Mais histórias podem ser contadas por nós, aqui no Mundo Primário ou lá e de volta outra vez no nosso Mundo Secundário. Em (sub)criação, apogeu, queda, vida, morte, imortalidade, conflitos, valores, união, guerras, poder, negação do poder entre tantos temas e subtemas, Tolkien nos mostra uma mitologia sem igual criada através de uma vida toda de dedicação, empenho, estudo e entusiasmo. De toda a mitologia criada, o maior legados somos nós fãs espalhados pelo mundo como inúmeros filhos e filhas da Terra Média.

Uma vida dedicada para outras vidas desfrutarem de sua obra. Tolkien é a prova que “Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado”.

Obrigado pela decisão, John Ronald Reuel Tolkien.

Rodrigo Passolargo
Escritor, Diretor da Fábrica do Mito e Presidente do Conselho Branco Sociedade Tolkien (gestão 2014-2017)

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