HQ de Chuck Dixon e Jorge Zaffino, Mundo Invernal é publicada pela primeira vez no Brasil e traz consigo uma excelente história de sobrevivência em um mundo caótico e gélido

Dentro da cultura pop, temos vários exemplos de boas narrativas de mundos pós apocalípticos, com personagens colocados em situações de limite extremos de sobrevivência e situações que exigem o máximo de nosso heróis, em busca de encontrar um lugar que lhes tragam tranquilidade, mesmo que seja uma paz momentânea.

Em Mundo Invernal não é diferente e, antes que eu comece a falar sobre a HQ, venho humildemente pedir desculpas ao meu amigo Édipo Galante, que sempre nas gravações do Pulsar, o podcast do CosmoNerd, falava de uma ideia de que “seria excelente existir um Mad Max no gelo.”

E eu sempre achava a ideia mais maluca possível, porque apesar dessas histórias serem referencias lá fora e definirem um gênero muito bem estabelecido, elas não são conhecidas do público brasileiro e só em 2017, graças à editora Mythos (em um belíssimo encadernado de luxo) Mundo Invernal chegou em terras tupiniquins.

Nos roteiros, somos apresentados e muito bem localizados em mundo frio, devastador onde apenas os fortes possuem chance de sobrevivência, e o gelo é um inimigo mortal e não perdoa ninguém.

A localização da HQ sobre os fatos históricos que levaram a esse congelamento do mundo e em como regredimos tanto na escala evolutiva não nos é contada e, em minha visão, não existe a menor necessidade disso. Pois brincar com essa narrativa do que poderia ter acontecido é muito desafiador para o leitor.

 

Mesmo não sabendo os motivos dessa hecatombe gélida, somos muito bem localizados em sua narrativa fria e devastadora, entendemos que a humanidade é o grande vilão e digo mais, o melhor que vilão que história poderia conter, pois o ser humano, quando levado a extremos, não decepciona em abraçar o pior de suas facetas.

Mas calma, temos um herói em meio a essa loucura gélida e pérfida. Acompanhamos o esperto comerciante Scully e seu fiel parceiro, o furão (serio, é um furão muito maneiro) RahRah e, logo no primeiro contato de Scully com o leitor, percebemos que o universo criado por Dixon, não é um lugar agradável, e a humanidade regrediu ao modo bestial.

Scully é um personagem esperto, safo, que entende como sua forma de sobreviver a esse mundo, que é viver de comercializar tudo em um lugar perdido, pode acabar lhe custando a vida, mas o que ele menos espera é encontrar um elo único, forte e inquebrável com a personagem Wynn. Os dois criam laços fortes logo no início da narrativa, e o sentimento de Scully pela menina é extremamente paternal e protetor.

Na primeira historia do encadernado chamado justamente de Mundo Invernal, vemos como essa relação é forte e juntos o trio irá superar grandes desafios e perceberem que eles possuem apenas um ao outro, o que pode ser tudo em um mundo de caos e perdição.

Na sequência temos a história Mar invernal, expandindo mais o passado da personagem Wynn. É uma verdadeira viagem às suas origens, e mostra o quanto a humanidade quando focado para o mal, pode trazer consigo as maiores destruições ao planeta e o que restou nele.

Esses dois contos são da equipe que criou as histórias de Mundo Invernal, nos roteiros o já dito Chuck Dixon e em uma arte espetacular e fora do comum, temos o traço inigualável do saudoso ilustrador argentino, Jorge Zaffino. A arte de Zaffino, só faz coroar magistralmente os roteiros de Dixon e é ai que HQ para mim tem sou ponto mais baixo, e ainda assim, mantém uma qualidade única, mas me destoa, pois sou apresentado a esse universo com um arte belíssima em preto e branco, e como a falta de cor casa com essa narrativa. E quando somos introduzidos a terceira história desse encadernado intitulada La Niña, os desenhos de Butch Guice e as cores de Diego Rodriguez, me fazem sair um pouco daquele torpor de leitura que eu estava tendo com a o espetáculo visual apresentado por Zaffino. Mas não posso desmerecer o trabalho narrado nesse conto, é uma excelente história, que 20 anos depois das duas primeiras narrativas, revisita esse universo de forma primorosa, é só um destoamento que tive inicialmente, mas que logo passa.

Nos materiais extras, temos uma excelente porem modesta galeria de arte de Zaffino, que poderia ser mais abrangente e a HQ começa com uma carta, escrita por Dixon em 1988, antes de lançar a continuação de Mundo Invernal, Mar invernal, elogiando o trabalho primoroso de Zaffino e como o argentino foi fundamental para a criação visual dessas histórias.

Um excelente trabalho da Mythos Books trazer pela primeira ao Brasil uma HQ que deveria ser conhecido por todos os amantes de boas histórias pós apocalípticas e daqueles que acharam que seria uma péssima ideia termos uma Mad Max no gelo, Mundo invernal cala a minha boca de uma maneira maravilhosa.

 

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