Em Evangelho de Sangue, Clive Barker expande sua mitologia explorando o oculto e o profano na ilustre companhia de Pinhead

Em 1986, o livro Hellraiser: Renascido do Inferno (The Hellbound Heart) foi concebido pelo multitalentoso Clive Barker. Misturando sadomasoquismo, ocultismo, violência explícita e suspense psicológico em poucas páginas, a intrigante história nos apresentou os Cenobitas, seres que são invocados por uma caixa misteriosa e não distinguem dor de prazer, aplicando torturas aos que decifram a caixa e invariavelmente os levando para o inferno. Em 1987, um ano após o lançamento do livro, Clive, que além de escritor é diretor, produtor e artista plástico, dirigiu sua adaptação para o cinema, que foi muito bem recebida pelo público e logo elevou “Pinhead” (líder dos cenobitas) a um ícone do terror dos anos 80, ao lado de Jason e Freddy Krueger. O fascínio e a curiosidade acerca dos Cenobitas se refletiu na expansão do sua mitologia tanto nas diversas sequências cinematográficas (mesmo que parte delas não tivessem o consentimento de Barker), quanto nas HQs. No entanto, apenas em 2015, Clive trouxe de volta os Cenobitas para sua produção literária e publicou o Evangelho de Sangue (Scarlet Gospels), que trouxe ainda conexões diretas com outros livros de sua autoria, como os Livros de Sangue. O universo literário de Clive Barker se expande consideravelmente com esta obra, onde somos convidados a conhecer o Inferno com “Pinhead” como guia e o soturno detetive sobrenatural “Harry D’Amour” como testemunha.

A edição brasileira de Evangelho de Sangue chegou em 2016 pela Darkside Books com um excelente acabamento e uma incrível ilustração na capa, de dar inveja às demais edições lançadas internacionalmente. A capa, contracapa e lombada do livro tem um estilo de acabamento que remete a um grimório, e a ilustração frontal representa um Pinhead em martírio com a nefasta caixa de Lemarchand à sua frente, num cenário cheio de simbolismos que captam muito bem a essência obscura e profana da obra de Barker. Com mais do que o dobro de páginas de seu antecessor (Hellraiser: Renascido do Inferno), este livro tem uma história muito mais expansiva, apresentando diferentes núcleos, em cenários diversos, até culminar numa jornada épica ao Inferno, alternando o foco da narrativa entre o detetive Harry D’Amour e Pinhead.

As primeiras páginas da história já impressionam com uma cena visceral de horror proporcionada pelos cenobitas e logo estruturam uma intensa atmosfera de perversão e mistério. Aos poucos, a narrativa nos encaminha para Harry D’Amour, conhecemos um pouco do seu passado e outros personagens curiosos que o acompanham. Na maior parte do livro a história alterna seu foco entre o núcleo de Harry e de Pinhead, até alguns eventos proporcionarem seu encontro, revelando o mirabolante plano do líder dos cenobitas e o mórbido fardo que ele reservou para o detetive.

Para quem conhece o trabalho de Barker apenas pela franquia Hellraiser e ainda não conhece o personagem Harry D’Amour, logo vai se interessar por ele, que inclusive já apareceu em filmes como O Mestre das Ilusões (1995) e O Livro de Sangue (2009). Harry é uma espécie de detetive sobrenatural com o corpo cheio de tatuagens de símbolos mágicos e sigilos que o protegem ou o alertam sobre um perigo eminente. A ideia de inserir os cenobitas no submundo de magia e ocultismo presente nas histórias anteriores de Harry D’Amour deu um tom muito interessante à narrativa, estruturando muito bem sua atmosfera sombria.

O livro se inicia de forma muito empolgante e surpreendente, no entanto, à medida que a história prossegue, os mistérios se atenuam e a narrativa que inicialmente era sugestiva, passa a ficar muito explícita em certos momentos, trazendo elementos de uma mitologia já muito bem conhecida, o que pode decepcionar um pouco os fãs que esperavam algo mais inovador vindo de Barker. Nesta obra, Pinhead assume de forma exclusiva o protagonismo dentre os cenobitas, deixando muito em evidência os seus anseios pessoais, e alterando a visão ambígua que se criou sobre sua índole.  Este aspecto pode não agradar aos fãs que consideravam a ambiguidade acerca dos cenobitas uma das características mais intrigantes sobre eles. Outro aspecto que também pode não agradar muito é o fato da “filosofia cenobita” de dor e prazer indivisível não ser muito explorada no livro.

Entretanto, apesar dos detalhes mencionados e mesmo trazendo elementos já bem conhecidos para estruturar sua mitologia, Clive consegue trabalhar com eles de forma intrigante e proporciona um final apoteótico em seu último livro com ilustre líder dos cenobitas, Pinhead. Com um ótimo ritmo narrativo, cenas memoráveis e personagens muito bem estruturados, Evangelho de Sangue consegue agradar bastante tanto fãs antigos, quanto novos leitores, que não precisam ter conhecimento prévio das obras anteriores do autor para aproveitar bem a leitura. Dentre aqueles que já acompanhavam o trabalho de Clive existem opiniões controversas sobre a obra, mas é inegável que o espírito herético, sombrio e perspicaz do autor permanece vivo e muito bem representado neste tomo.

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