Em sua terceira antologia, Duda Falcão segue explorando a interface entre terror e fantasia em diferentes subgêneros e estilos narrativos

Comboio de espectros é o terceiro livro de Duda Falcão sob formato de um compilado de contos lançado pela AVEC Editora em parceria com a Argonautas. Transitando pelas diversas facetas do pulp, o livro possui nítidas influências de autores renomados no estilo como H. P. Lovecraft, E. A. Poe, H. G. Wells, R. E. Howard, W. W. Jacobs, dentre outros. Assim como seus antecessores Mausoléu (2013) e Treze (2015), o tomo é conduzido pelo personagem “Anfitrião”, um carismático morto-vivo que nos introduz às histórias. O livro possui ilustrações pontuais de Fred Macedo, incluindo capa e contracapa, que transmitem muito bem o estilo pulp. Além disso, há um fantasminha na lateral direita das páginas que funciona como um simpático indicador do progresso na leitura.

“Comboio” é um pouco menor do que seu antecessor (Treze), e agrupa 11 contos que flertam constantemente com o terror e a fantasia. Alguns contos são relacionados diretamente com os dos livros anteriores, podendo ser continuações ou prequelas, ou apenas compartilharem o mesmo universo. A primeira história é a que deu nome ao livro, e consiste numa série de relatos em diferentes épocas sobre o nefasto fenômeno do Comboio de Espectros. Apesar do estilo narrativo ser bem interessante neste caso, considero este conto um pouco longo em relação aos outros e por vezes repetitivo em sua primeira metade o que afeta o ritmo de leitura do livro como um todo. Talvez isto se mostrasse menos evidente se o conto fosse inserido apenas no final do livro. Após o curioso e curto “O Escriba de Lhu-Kathu”, seguimos para o terceiro conto do livro chamado “Eadgar e a Erva do Pesadelo”, uma criação muito interessante de Duda Falcão mesclando elementos de Edgar Allan Poe e R. E. Howard. Esta história segue a aventura épica de Eadgar, uma espécie de Conan gótico, em busca de sua amada Lenora e é uma prequela de “Eadgar e o Resgate de Lenora”, presente em Treze (2015).

O quarto conto também se estrutura sobre um universo criado por Duda Falcão presente em livros anteriores do autor. “O Trem do Inferno” acompanha Kane Blackmoon e seu demônio interior numa soturna atmosfera de faroeste sobrenatural. “Criatura do travesseiro” é o quinto conto do livro, curto, porém com um desfecho intrigante, homenageando o interessante “O Travesseiro de Penas” de Horacio Quiroga. Os dois contos seguintes mergulham na mitologia lovecraftiana, fazendo uma série de referências diretas às obras de H. P. Lovecraft.  “Sangue dos Antigos” ambienta no subúrbio de Porto Alegre uma trama de amuletos profanos e seres híbridos que cultuam o mítico Dagon, remetendo a “Abismos Insondáveis”, presente em Treze, onde Duda Falcão já começa a estruturar seu universo lovecraftiano. “Sonhadoras” é uma intrigante aventura contada por meio de um diário de campo de um pesquisador em busca de plantas lendárias e exóticas, as “sonhadoras”. Nesta trama Duda Falcão aborda um dos temas mais instigantes e recorrentes na literatura de Lovecraft, o de um cientista que no limiar da ciência e da magia, busca expandir sua percepção e acaba sucumbindo a destinos hediondos. Nos demais contos temos um filme amaldiçoado em “Película Fantasma”, uma desventura alquímica em “Sessenta itens para criar um golem”, uma intimista história de lobisomem em “Eterna Lua Cheia” e no último conto “Igreja da meia-noite”, Duda Falcão cria uma curiosa versão de inferno, referenciando a icônica canção “Highway to Hell”.

Em geral as histórias tem um bom ritmo, premissas interessantes e criativas, apesar de algumas delas apresentarem um andamento relativamente previsível. As referências a grandes autores são bem adaptadas às tramas, e devem agradar quem já é fã destes. No entanto, quem já leu Mausoléu ou Treze não deve se surpreender muito com Comboio de Espectros. Poucos dos contos que expandiram histórias já iniciadas nos livros anteriores do autor se mostram tão empolgantes quanto os primeiros. Ainda assim é muito interessante observar a construção destes universos dentro da obra de Duda Falcão, que bebe de fontes de diferentes mestres do terror e da fantasia. A diversidade de temas e estilos narrativos nas tramas, aliada a premissas por vezes inusitadas e referências criativas seguem sendo as características mais atrativas das antologias de Duda Falcão.

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