Numa gostosa mistura de Harry Potter e X-Men, Douglas MCT brinca com a mitologia dos monstros clássicos

Vivemos numa época onde a literatura fantástica possui uma infinidade de segmentos e abordagens, e usá-las de forma inteligente se torna cada vez mais um desafio para aqueles autores e autoras que almejam entregar uma obra de qualidade. Douglas MCT assume esse risco com Betina Vlad e o Castelo da Noite Eterna, livro lançado pela AVEC Editora.

A trama acompanha Betina, uma adolescente de Cruz Credo, pequena cidade do interior de São Paulo. Órfã desde cedo, a garota tem uma vida normal (na medida do possível) regada a muitos filmes clássicos de terror, além das típicas preocupações colegiais para alguém dessa faixa etária. Após uma série de acontecimentos bizarros, a garota se vê com habilidades especiais num cenário onde ela é ninguém menos que a filha do Drácula, e agora precisa encarar seu próprio pai e conhecer outras pessoas como ela.

A estrutura da história segue a cartilha do que já foi consagrado, como na franquia de sucesso Harry Potter. Algumas passagens são até parecidas demais, como quando os protagonistas precisam chegar a uma sala secreta, tendo que passar por desafios, entre eles charadas e outros processos de gameficação. O legal é que o autor usa esses artifícios sem medo, trazendo momentos agradáveis como a “formação RPG” para uma importante batalha. Tudo bastante didático e divertido.

Um diferencial é o toque brasileiro na linguagem e referências, lançando mão de peculiaridades como a cidade de Cruz Credo, Fusca como carro de fuga e tantas outras. Mas essas referencias vão além e contemplam toda a cultura pop / geek no geral. Exemplo disso é a questão dos sobrenaturais, que seriam algo equivalente aos X-Men: segregados da sociedade com superpoderes que, em determinados momentos podem ser uma maldição, mas também algo para fazer o bem e promover a auto-defesa. Eventualmente, um deles irá pregar a soberania dos poderosos em detrimento ao lado dos que são entendidos como normais, ou seja, os humanos. O Castelo da Noite Eterna funciona muito bem nesse contexto, como se fosse uma mansão Xavier ou então o castelo de Hogwarts.

Há também na edição o uso de artifícios bastante em voga ultimamente, como telas de smartphone para ilustrar uma conversa virtual, algo totalmente enraizado na comunicação íntima das pessoas. Isso contribui para entendermos como andam o outro núcleo da história, mas poderia ter sido usado com menor frequência pois se torna basicamente a única forma de acompanharmos o ponto de vista antagonista, com exceção de alguns sonhos da protagonista, que possui a habilidade de sonhar vendo a perspectiva de outras pessoas.

Na edição da AVEC há um guia de personagens para ajudar a guiar o leitor, algo oportuno pois há bastantes personagens na história. Os mais legais (e isso vai variar de acordo com quem lê) são a própria Betina, Madame Vodu e Mirela Maeve. As figuras inspiradas nos personagens clássicos do horror também dão as caras, como Drácula, Van Helsing e Dr. Henry Jekyll. Mas também há aqueles que são uma versão moderna dos já consagrados, como Adam Frankenstein. As ilustração de Michel Mums dão um charme especial ao material.

Betina Vlad é uma opção muito boa para quem busca uma nova e atualizada aventura no campo da fantasia infantojuvenil, com boas sacadas que são usadas de modo igualmente satisfatório. Há a possibilidade de novas histórias nesse universo também, mas isso é papo para outra hora.

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