Telltale e seus jogos

O primeiro jogo da Telltale que joguei foi o Back to the Future, naquela época ela era só mais uma empresa que estava voltando com o estilo de jogos adventure point n’click, mas esse jogo ainda não tinha a qualidade que faria a empresa ficar famosa e revolucionar o mercado de certa forma. Somente com o The Walking Dead anos depois é que eles foram introduzir o seu sistema de escolhas onde a história se molda de acordo com suas decisões, ganhando até o prêmio de melhor jogo do ano com a obra.

Quando joguei The Walking Dead pela primeira vez, realmente foi mágico. Ele tinha uma história e narrativa fantástica e te colocava em situações onde você tinha que fazer escolhas horríveis. Uma ótima experiência. Quando joguei pela segunda vez, a máscara caiu, me senti como o inventor da máquina do tempo de H. G. Wells: não importava o que eu fizesse, o futuro não poderia ser mudado, ele já estava escrito. Mas isso tornou o jogo ruim? Não! Obviamente fiquei um pouco chateado em saber que eles nos davam uma falsa sensação de liberdade, é como nossa democracia se formos pensar assim. Mas a experiência do jogo foi tão intensa e fantástica que eu aceitei, tudo bem eu só mudo uns detalhes, o jogo é incrível mesmo assim (eu até chorei no final!).

Com Wolf Among Us foi a mesma coisa, no começo eu ainda estava com aquele negócio na cabeça: Nada que eu fizer aqui vai mudar nada, eles estão tentando me enganar de novo. Ainda mais porque a história é um prequel de um quadrinho que eu já tinha lido: Fables. Então eu sabia quem morria e quem vivia naquela ali. Mas eu deixei isso pra lá e entendi que eles estavam somente me contando uma ótima história e que eu escolhia alguns detalhes, como o personagem is se comportar e que tipo de persona eu estava criando.

O Caso Game of Thrones

Mas Game of Thrones não foi uma experiência agradável… Você pode até falar que GoT não é agradável nem no livro nem na série, mas eu terei que discordar. Por mais que a história não seja a das mais felizes, ainda existe momentos de felicidade e esperança, apesar das piadas que a série recebe, GoT não é só tristeza e desespero. Todas as coisas horríveis que acontecem tem um porquê. E parece que os roteiristas do jogo não entenderam isso direito.

Mas qual a diferença entre Walking Dead, Wolf Among Us e GoT? Vamos pegar o âmago desses contos. WD é sobre sobreviver em um mundo desolado onde mal existe esperança e tentar cuidar de uma garota enquanto isso, é sobre ser pai mesmo não sendo biologicamente e cuidar de uma criança em um mundo onde você não consegue nem cuidar de si mesmo. O jogo consegue passar essa sensação? Totalmente! Já WAU é sobre como o personagem principal se comporta, é sobre alguém que tem um passado maldito e está procurando uma certa redenção, mesmo que o seu trabalho dificulte as coisas, você é o cara que vai meter a mão na sujeira no final do dia, e vai ser julgado por isso, então você pode tentar passar uma boa impressão ou mandar tudo pro inferno. E é exatamente isso que o jogo passa! Mas GoT é sobre uma casa caída, que está quase se acabando e seus esforços para sobreviver a essa crise, utilizando personagens diferentes em locais diferentes, cada um tentando da sua forma evitar a queda da sua família. Ele consegue passar essa sensação de desespero? Sim. Mas porque no final a experiência não foi satisfatória?

WD e WAU podiam não ser historias em que você realmente mudava o rumo da trama, mas eram histórias simples. Não que elas fossem ruins, mas elas eram mais minimalistas e intimistas, eram focadas mais em personagens do que no enredo em si. GoT tenta focar em uma história épica e em vários personagens para poder emular episódios da série, mas no final nos entrega uma história rasa que apela para momentos chocantes, coisas ruins acontecendo e decisões horríveis para chocar e “divertir” o jogador. No começo era muito bom, eu estava adorando, mas lá pro final cansou, senti que tudo que eu fazia realmente não ajudava em nada.

Os Erros

Mas onde GoT errou? Começando pelos personagens, eles são bons, você se importa com eles mas alguns se perdem na trama e parecem completamente inúteis no final. Tem um personagem em específico que quando chega no “final da sua história”, você vê que tudo foi inútil, todos aqueles 6 episódios jogados não serviram para nada. Outro personagem está tão longe da trama principal que você não consegue mais nem relacionar a sua jornada com o foco da série. É outra temática tanto por questão territorial como de clima. Em um certo momento você tem que escolher entre personagens para morrer ou viver, a Telltale sempre faz isso e quem já jogou seus jogos sabe como ela resolve os problemas de criar linhas alternativas. Quem não morreu agora vai morrer depois, e isso pode até ser aceito durante episódios de uma temporada, mas o problema aqui é que essas linhas temporais foram deixadas para a próxima temporada! Não só isso, mas outras pontas soltas que eles deixaram vão ser “resolvidas” porcamente pela Telltale, como já foi feito antes. Eles estão com um problemão nas mãos agora e não vão poder resolver.

Além de um enredo fraco e que apela para o choques (tal como a série vem fazendo porcamente), o maior problema desse jogo foi a megalomania, a Telltale quis fazer algo muito grande, cheio de variáveis e sabendo que eles mesmos não vão ter como resolver isso de forma satisfatória. Uma pena, pois a série começa muito bem e tinha potencial. A trama tem ótimos momentos e personagens interessantes mas eles se perdem no meio de outras porcarias. Outro problema é que a história de GoT está muito presa à série de livros e TV, ou seja, eles não poderiam fazer mudanças muito drásticas ou colocar muitos personagens conhecidos sem mexer na cronologia. Os outros dois jogos citados antes também fazem parte de franquias, mas a diferença, como dito antes, é que são histórias mais contidas e simples, sem precisar mexer muito no status quo do mundo onde se passam.

Como Resolver?

Mas como resolver esses problemas? Primeiramente a jogabilidade da Telltale já está cansando. Eles finalmente estão desistindo do point’n click para focar somente em histórias interativas. Não que eu ache isso ruim, cada vez mais tenho menos paciência para revolver puzzles e quero mesmo é decidir minhas falas e seguir com a história. Mas se eles focam só no enredo, que façam um enredo muito bom! Essa mecânica de Quick Time Events também já me cansou faz tempo, é uma funcionalidade pobre e preguiçosa para te dar algum controle nas cenas de ação, mas apertar um botão que eles querem na hora que vai acontecer algo não traz nenhum desafio e nem ajuda na imersão, visto que são sempre os mesmos botões, talvez algumas interações mais criativas com o mouse pudessem ser mais imersivos.

Sobre as escolhas, eles deviam se decidir. Ou abrem logo o jogo para o jogador falando que você só escolhe mesmo detalhes, focando em boas histórias simples, ou realmente podem tentar dar um passo à frente e criar diferentes linhas narrativas dependendo das suas escolhas, outros jogos como Heavy Rain já fizeram isso. Por que a Telltale não consegue? Eles tem que trabalhar melhor com suas deficiências, e não dar passos maiores que a perna. Não adianta falar que “fulano vai se lembrar” disso ou daquilo que falamos no jogo, já deu pra perceber que isso não influencia em nada!

Apesar das palavras anteriores, ainda jogarei os próximos jogos da Telltale que tiverem temas interessantes e até curti a jornada de GoT, nos últimos episódios é que a história se perdeu mesmo. Espero que eles consigam novamente revolucionar o mercado pois é um estilo de jogo que me interessa muito, mas que já está ficando muito cansativo.

We will never forget Telltale!