No espaço, ninguém vai ouvir você gritar.

Eu não sou muito fã de jogos de terror, aliás eu não sou muito fã nem de filmes desse gênero. Sempre fui muito cagão e não curto assistir nem passar por situações de tensão, seja em um filme, jogo ou até mesmo em parques de diversões. Mas mesmo assim peguei o Alien Isolation para jogar quando ele saiu de graça na PS Plus, principalmente por gostar muito da franquia e ver as opiniões dos críticos. O que eu não sabia era que eu entraria em um dos maiores e mais gratificantes pesadelos da minha vida.

Alien Isolation é uma das várias adaptações da franquia para os jogos mas, diferente dos seus antecessores, o jogo foca principalmente no horror de sobrevivência do primeiro filme, no lugar de apostar mais na ação dos Space Marines trazido pela sequência de James Cameron. O jogo segue mais o estilo de slasher film de ficção científica do primeiro filme de Ridley Scott. Nesse jogo você não mata o alien, ele caça você e seu objetivo é sobreviver com os poucos recursos e munições que ele lhe traz.

Para começar com o clima de tensão, a ambientação do jogo é sensacional e muito bem aplicada. Você é jogado em uma nave abandonada e esquisita e em poucos minutos do jogo, mesmo não tendo oponentes, só o fato de andar sozinho por esse lugar, já vai criando uma tensão e deixando o jogador apreensivo. Depois de terminar o jogo, entendi que esses bons minutos iniciais são para introduzir o cenário e também as principais interações do jogador com o ambiente, uma espécie de tutorial em um ambiente menos hostil, antes do desafio realmente começar. Tal como o filme de 79, o desafio aqui era criar um ambiente assustador diferente. Eu acredito que menos de 1% dos jogadores já esteve em uma estação ou nave espacial, então é muito difícil você imergir o jogador em um ambiente desses, um ambiente literalmente alienígena.

Mas o jogo é muito feliz em deixar o jogador desconfortável desde o começo, e não só o visual da estação espacial Sevastopol é assustador e esquisito, o som é um personagem muito importante nessa equação. O lugar está abandonado e destruído, então sons esquisitos surgem em volta de você a todo momento. Canos soltam fumaça, portas abrem sozinhas e estalos vêm dos mais diversos locais. Tal como uma geladeira que estala a noite ou uma madeira que faz um som esquisito, Sevastopol possui diversos sonzinhos esquisitos que surgem do nada, inocentes, mas que vão lhe dar aquele susto quando estiver mais atento. Desnecessário dizer que é essencial jogar esse jogo com um fone de ouvido surround, saber de onde um som vem pode salvar sua vida diversas vezes.

Falando em som, a trilha sonora com direção de Jeff Van Dyck (conhecido pela série Total War, também da SEGA) é pontual e vai te deixar com a espinha fria em diversos momentos. É claro que existem cenas em que a trilha é exagerada demais e até atrapalha no entendimento das vozes dos personagens, mas em momentos pontuais ela combina muito com o que está acontecendo na tela. Jeff se inspirou em clássicos do terror para deixar a gente com medo só pelo som.

Mas o que torna Alien Isolation um jogo tão tenso? O que faz um jogo te dar medo? É claro que jump scares e cenas escritas para lhe dar susto causam um pulso de adrenalina gostoso, mas o principal trunfo do jogo é te deixar tenso por maior parte dele. Em Alien você está sendo caçado pelo Xenomorfo, desde a primeira vez que o antagonista aparece, ele é mostrado como uma força da natureza que não pode ser parada, nenhuma arma ou equipamento que você tem poderá matá-lo, tudo que você pode fazer é fugir e se esconder. O Alien é uma ameaça presente, que está sempre à espreita e em sua volta, e o jogo possui duas ferramentas para te confirmar isso: os sons e o sensor de movimento. Se você tem alguma dúvida que o bicho está por perto, é só prestar atenção em algum desses dois, essas ferramentas são uma faca de dois gumes, ao mesmo tempo que elas te ajudam, elas servem para criar esse clima de tensão que vai te deixar sempre apreensivo.

Um dos fatores que eu mais gosto no jogo é como seu personagem é frágil e lento. Tudo que você faz no jogo é demorado e desengonçado, Amande Ripley é uma técnica, ela não é uma heroína de ação, então atirar sempre é difícil. Além disso, o clima retrô do jogo traz diversos sistemas e interfaces que lembram os computadores em DOS, muito lentos e truncados. Até mesmo para salvar o jogo levamos alguns segundos, o que pode parecer pouco, mas dura uma eternidade quando o Alien ou outro inimigo está à espreita. Uma das minhas cenas favoritas do jogo é quando o Alien aparece pela primeira vez e mata um aliado seu, você tem que fugir e chamar um transporte que demora um bom tempo para chegar. A cena é dirigida para que o Alien não apareça, mas a demora e a trilha sonora enquanto você espera o transporte chegar são fenomenais.

Isso não é novidade em jogos de terror, mas uma boa forma de deixar o seu jogador tenso e com medo é ter uma dificuldade excessiva. Alien Isolation nos incentiva a jogar na dificuldade Difícil justamente para poder ter essa experiência mais completa. O jogo possui diversas formas de te matar e os save points são bem espaçados, dessa forma você teme muito mais pela sua vida. É claro que a morte nos jogos é algo que pode ser discutido e questionado se realmente causa algum impacto, mas quando o seu personagem já está alguns bons minutos andando, pegando itens e evitando conflitos sem salvar, a sua vida vai ficando cada vez mais preciosa.

Mas talvez o grande trunfo de Alien Isolation é a Inteligência Artificial do alien. Ele é mais rápido, mais forte e muitas vezes mais esperto que você mas ele possui algo que muitos  jogos não possuem: aleatoriedade. Em muitos jogos difíceis, existe um fator de tentativa e erro em que vamos morrendo e aprendendo os padrões dos inimigos, isso é uma máxima dos jogos. Mas aqui, apesar do alien possuir certos padrões de comportamento, sua movimentação e ações são modificadas toda vez que você dá load. Antes o Alien te pegou em uma sala, mas na próxima vez ele pode nem estar mais lá. Isso dá ao jogo um fator de insegurança muito desesperador. O alien é um “organismo perfeito” como descrito no primeiro filme, ele é uma máquina de caçar e você é sua principal presa. O jogador precisa ser paciente e influenciar o ambiente para poder escapar como em qualquer bom jogo de stealth. Enfrentamento quase nunca é uma opção.

Essa inteligência artificial gera um fator de rejogabilidade bem interessante e um sentimento que o Alien é outro jogador, um assassino inteligente que persegue e vai mudando seus hábitos. Um balanceamento legal é que quando você pega mais ferramentas e acha que fugir do Alien vai ficar mais fácil, o comportamento dele muda e o bicho vai ficando mais agressivo e inteligente, como se ele tivesse aprendendo com suas ações.

No começo desse artigo eu falei que Alien Isolation é um pesadelo, confirmo isso trazendo um fator do jogo que é muito criticado por aí: sua duração. Realmente o jogo é longo e para um jogo desse tipo chega um momento que cansa. Mas eu entendo isso como uma forma de nos colocar na pele de sua protagonista. Ao final do jogo percebemos pela voz e falas de Amanda que ela não aguenta mais nada daquilo, tal como nós.  O jogo te engana em diversos momentos e você acha que chegou ao fim dele, mas cada plano que dá errado e novo desafio que aparece tanto o jogador como Amanda pensam o mesmo: “Sério?”. Essa duração excessiva e “falsos finais” ainda conseguem enganar bem o jogador fazendo-o gastar seus itens e munição como se fosse o final do jogo, deixando o mesmo em saia curta depois quando ele percebe que aquele pesadelo ainda não acabou.

Eu poderia falar mais desse jogo e como ele consegue trazer outros aspectos interessantes como o uso de som e cores para indicar interfaces e interações dentro dele, ou outros aspectos interessantes. Mas nesse eu quis focar mais nessa tensão e terror que o jogo traz. Alien Isolation é um pesadelo, um jogo difícil e desafiador que vai te frustrar, mas tudo isso é muito bem pensado e recompensador quando derrotado. Uma aula de como fazer um jogo de terror.

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