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Spiritfarer: A jornada da empatia | Crítica

Jogo de “fazendinha” fala sobre relações humanas e morte

Todo jogo é feito de conflito. Mas conflito nem sempre significa combate ou atirar em hordas de inimigos. Em Spiritfarer, da Thunder Lothus Games, você também está resolvendo problemas como na maioria dos jogos. Mas o foco aqui são os problemas, medos, ansiedades e necessidades das pessoas que estão à sua volta. Confira nossa crítica sem spoilers.

Em Spiritfarer, você controla Stella, uma moça que acabou de conseguir o emprego de Caronte, o barqueiro dos mortos. Ela e seu gato agora precisam ajudar espíritos a realizar seus últimos desejos para que possam passar para “o outro lado”. Durante o jogo, você vai abrigar os mais diferentes tipos de animais antropomorfizados em seu barco, explorando ilhas, gerenciando recursos, cozinhando, caçando águas-vivas voadoras e as mais variadas coisas.

Spiritfarer Screenshot

Sobre o que é Spiritfarer?

É difícil definir Spiritfarer em um só gênero. À primeira vista, ele parece um jogo de aventura de plataforma. E, com certeza, você vai passar um bom tempo pulando por aí. Mas, rapidamente você percebe que precisa plantar sementes, aguar, colher. Ok, então é um jogo de fazenda. Mas você também transforma pedras em materiais de construção, edita seu barco, conversa com pessoas, aprende a cozinhar, etc. É incrível o número de mecânicas simples, processos e mini-games que são colocados nesse jogo. Todo recurso ou processo precisa de uma ação diferente ou um pequeno mini-game para ser realizado.

Lógico que se você estiver jogando com pressa, pode ficar um pouco chato ou repetitivo, mas acredito que seja uma forma do jogo falar sobre como os processos e a jornada são importantes. Você poderia simplesmente clicar em uma pedra para conseguir seus recursos, mas tem que segurar o botão e soltar na hora certa para coletá-los de forma correta. Isso acaba gerando uma maior imersão e importância para aquela ação.

Apesar de possuir esses vários processos e tipos de gameplay diferentes, o jogo brilha mesmo é no seu texto. Cada tripulante do seu barco é representado por um animal antropomorfizado com suas próprias animações, personalidade e objetivos. Alguns personagens são mais interessantes que outros mas, pouco a pouco, você vai aprendendo a amar todos de forma específica. Você pode até não concordar com a forma que alguns deles vêem o mundo, mas nunca vai deixar de se importar ou respeitar eles.

O texto, em certos momentos, é bem direto e explicativo, mas na maior parte das vezes te entrega somente uma parcela das histórias, deixando para você a missão de encaixar tudo e entender melhor aqueles personagens. Isso acontece muito mais com a personagem principal, muito pouco é falado e mostrado. Muito fica a critério de sua interpretação.

“Quando você pratica a empatia, a felicidade do outro se torna a sua.”

Spiritfarer Screenshot

Mas, como acontece na vida real. No momento em que você aprendeu a se afeiçoar e amar aqueles personagens, a vida tira eles de você. Acontece que todos os personagens ali são espíritos que precisam arrumar tudo antes de partir. E , tal como na vida, a morte é uma invariável comum, algo que sempre vai acontecer. Dessa forma o jogo trata a morte de uma forma madura, respeitosa e que te faz pensar.

Por mais mórbido que isso seja, talvez esse seja o momento perfeito para que esse jogo seja lançado. Já faz alguns meses que a morte paira sobre nossas cabeças e faz parte da nossa vida. Todo mundo conhece pelo menos uma pessoa que morreu por causa da pandemia do novo corona vírus. Um jogo como Spiritfarer pode te mostrar que a vida é uma jornada, o fim é o mesmo para todos e que, talvez, a coisa mais importante da vida seja fazer o bem aos outros. Pois, quando você pratica a empatia, a felicidade do outro se torna a sua.

Spiritfarer Screenshot

A arte incrível de Spiritfarer

Toda essa filosofia do jogo é apresentada de uma forma incrível e que talvez seja o primeiro chamariz do jogo. A arte de Spiritfarer é toda em animações 2D que seguem um estilo bem tradicional Ghibli ou Disney. Os personagens e cenários são carregados de personalidade e, mesmo que as animações sejam limitadas, funcionam muito bem com as situações que o jogo oferece. A ótima música composta por Max LL é a cereja do bolo que transforma esse mundo em um dos mais gostosos de se navegar dos últimos tempos.

Em questão de jogabilidade o jogo é bem simples, mas funcional. Você vai passar a maior parte do tempo correndo pra lá e para cá resolvendo as missões que lhe são dadas, coletando recursos, construindo coisas e cuidando de seus amigos. Caso você trate bem seus tripulantes dando a comida que eles gostam e dando abraços, eles vão ficar mais felizes e te recompensar com itens. Inclusive, parabéns para a pessoa que pensou na mecânica de abraço nesse jogo. É algo tão simples mas poderoso, um momento especial. Cada personagem tem uma animação de abraço diferente, representando muito da sua personalidade em um gesto simples. A movimentação da protagonista também é muito gostosa, te dando prazer em ficar correndo e pulando.

É uma pena que os processos mecânicos do jogo vão de encontro em alguns momentos com a sua mensagem. Um exemplo é um recurso que você ganha quando um personagem “morre”. Para avançar no jogo, em alguns momentos, você precisa comprar um upgrade  para o navio que precisa desse recursos. Então você meio que vai completando os objetivos para que aquele personagem se vá logo e você colete o seu item. Essa objetificação da morte através de um recurso do jogo me trouxe um pouco para essa filosofia capitalista de troca e venda, tirando um pouco da imersão emocional do jogo. Mas é somente um detalhe, pois esse processo é importante. Se você não cumprir o desejo final de seus tripulantes, vai ficar travado no jogo.

Veredito

Spiritfarer é um jogo único. Lógico que ele pega emprestado elementos de diferentes jogos como Harvest Moon e Animal Crossing. Mas a ótima escrita e gráficos maravilhosos fazem com que ele seja algo que mereça ser experienciado. Eu não via temas humanos como a morte e relações pessoais serem abordados de forma tão interessante em jogos desde To the Moon. Ele vai te fazer rir, chorar, se emocionar e se viciar evoluindo seu navio e cumprindo suas pequenas missões. Os processos podem ser um pouco repetitivos e acho que o jogo se estende mais do que deveria. Mas as lembranças que ficam são aquelas que você passou com seus amigos, os momentos tristes, os felizes e, principalmente, as despedidas.