Cenários cyberpunk fazem muito sucesso em diversas mídias. Livros, jogos, filmes e principalmente jogos de tabuleiro. A Fantasy Flight Games possui um cenário bem conhecido do mundo de Android, principalmente por causa do cardgame feito por Richard Garfield, o Android Netrunner. Mas muitas pessoas não conhecem um jogo de 2008 bem mais narrativo e complexo, chamado somente de Android.

O jogo traz investigadores tendo que resolver crimes em um cenário cyberpunk enquanto tem que resolver problemas pessoais, bem no estilo Blade Runner. Cada personagem tem seu próprio arco narrativo que pode terminar bem ou mal e cabe ao jogador decidir se vai perder mais tempo tentando resolver o crime que foi contratado para resolver ou se vai tentar reatar a relação com seu pai, por exemplo.

Sempre que vou tentar falar desse jogo tenho dificuldade de descrevê-lo, o jogo é bem único e possui uma grande mistura de mecânicas, tornando-o bem complexo e cansativo em certos momentos. Mas o básico do jogo se resume a andar pelo mapa coletando pistas para incriminar um dos suspeitos de um crime. Eu falei incriminar em vez de resolver porque é aqui que entra uma das reclamações com o jogo. No início de cada partida, você recebe uma carta de culpado e outra de inocente, cada uma representando um dos suspeitos no jogo. No final da partida, aquele que tiver mais incriminações vai ser o culpado, mas nada no jogo diz que aquele é realmente o culpado, mas o que foi incriminado. Além disso, você pode escolher não incriminar alguém para investigar a fundo as conspirações das corporações por trás do crime, pois como bom mundo de cyberpunk, elas dominam o mundo de Android. Então deu pra perceber que esse mundo é bem mais cínico e crítico, fazendo mais sentido ele ser um jogo de incriminar do que de dedução.

Uma dos aspectos mais interessantes do jogo é a sua preocupação de criar um clima e vida para esse mundo. Cada personagem que aparece possui uma história própria que faz sentindo com o mundo que ele está inserido. Até mesmo os suspeitos possuem um background que influenciam nas mecânicas. Um mafioso pode ter boas provas documentais dos seus atos, por que ele é menos cuidadoso, mas as pistas de testemunha contra ele não vão ser muito eficientes, pois a pessoa pode estar com medo do que pode acontecer com ela caso a verdade venha à tona.

Cada personagem possui um grande texto explicando sobre ele mesmo e sobre seus entes queridos que vão se envolver na sua história. Além disso, cada carta ajuda um pouco a criar as relações entre esses personagens e na construção de personalidade, esses textos excessivos podem deixar as partidas mais maçantes, mas se a mesa estiver interessada dá para contar uma boa história de forma cooperativa.

Dentre os personagens temos um detetive traumatizado com guerras passadas, uma clone com problemas emocionais e psicológicos, um android religioso entre outros. O jogo tem coragem de abordar temas bem sérios e pesados, acarretando até na morte de personagens importantes que você aprendeu a gostar ao longo da partida.

Todo esse clima de investigação, androids e cenário cyberpunk noir fazem Android o jogo com o clima mais Blade Runner que eu vi até hoje. É um jogo já antigo, ambicioso e falho em diversos momentos mas não deixa de ser uma experiência única em quesito de jogos analógicos. É um jogo que deve ser apreciado com paciência e interesse em acompanhar uma boa história, ao mesmo tempo que é um boardgame pesado com diversas mecânicas e formas de pontuar diferentes. O universo de Android é bem rico e possui outros jogos como Netrunner e New Angeles, mas espero que um dia saia uma versão mais simples de Android, para se tornar um jogo mais acessível.

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