*Por Guilherme Haas

Cinema sempre foi uma atividade de risco. Desde a consolidação da indústria cultural, da qual Hollywood ainda é o maior representante, filmes de sucesso foram capazes de enriquecer estúdios e executivos, fazer carreiras de astros e estrelas; por outro lado, fracassos levaram companhias à falência.

Todos os anos acompanhamos casos de produções que surpreendem as expectativas e carregam multidões aos cinemas; muitas delas, inclusive, acabam se transformando em verdadeiros fenômenos culturais, gerando discussão entre os espectadores e marcando época.

Todo mundo deve ter a lembrança de algum filme que surgiu de repente, do qual pouco se sabia antes do lançamento mas que, ao chegar às telas, conquistou o público e arrebentou nas bilheterias.

O longa Matrix, de 1999, é exemplar nesse sentido: o estúdio temia que a produção fosse um grande fracasso e não fez muita campanha para a estreia nos cinemas. O resultado, porém, todos conhecem, e é inegável a importância do filme na história da sétima arte.

Em 2017, estamos vendo uma sequência impressionante de casos extremos de sucesso, mas também de fracassos. Claro, todo mundo poderia esperar que A Bela e a Fera levaria milhões aos cinemas, mas o que dizer da arrecadação de Corra!, que pegou todo mundo de surpresa?

A produção, orçada em apenas US$ 4,5 milhões (uma mixaria para os padrões de Hollywood), passa dos US$ 250 milhões nas bilheterias mundiais, sendo que ainda não encerrou sua carreira comercial. O longa de suspense apresenta um sujeito negro que vai conhecer a família de sua namorada branca, desvendando uma trama macabra de opressão racial.

Corra! se tornou um fenômeno nos Estados Unidos, gerando debate sobre seus temas e seu discurso culturalmente relevantes. O boca a boca ajudou o longa a fazer rios de dinheiro, mesmo sem muita campanha de divulgação. Considerando o seu baixíssimo custo, a produção deverá liderar a lista dos filmes mais lucrativos do ano em Hollywood.

Nos meses mais recentes, com as estreias dos blockbusters do verão americano (de meio de ano), testemunhamos outros exemplos chocantes nas bilheteiras. O caríssimo Rei Arthur: A Lenda da Espada, produzido por US$ 175 milhões, não foi capaz de chegar aos US$ 40 milhões nos cinemas americanos, dando muito prejuízo ao estúdio!

O astro Tom Cruise também encara neste momento um fracasso com A Múmia, que não está arrecadando o esperado para uma superprodução que deveria dar o pontapé inicial em uma nova franquia de monstros nos cinemas. Ainda que venha a se pagar, o longa está sendo duramente criticado pela mídia e pelo público.

Enquanto isso, a aventura solo da Mulher-Maravilha, que chegou aos cinemas em meio a desconfianças e descrédito dos fãs em relação ao Universo Cinemático dos heróis da DC (após os resultados controversos de Batman vs Superman e Esquadrão Suicida), está fazendo muito sucesso ao redor do mundo.

O que esses casos nos mostram é que filmes bons têm uma maior chance de sucesso nas bilheterias. Críticas da imprensa e de veículos especializados têm influenciado o interesse do público nas produções, e o boca a boca dos espectadores – cada vez mais conectados através das redes sociais – tem determinado o sucesso ou o fracasso dos longas imediatamente após suas estreias.

Por que então os estúdios de Hollywood não apostam mais em “bons filmes”? Por que continuam investindo em produções caras e de grande risco? A resposta, bastante simples, é que não há uma fórmula para saber de antemão o que vai cair no gosto da crítica e do público.

Isso porque, quando o estúdio aprova a produção de um filme, há meses que separam a etapa de filmagens do momento de lançamento da obra nos cinemas. Certamente, os executivos não queriam perder dinheiro ao apostar em um épico medieval como Rei Arthur, e a ideia deve ter parecido atraente considerando o interesse do público por títulos como Game of Thrones, mas a proposta não funcionou como eles esperavam.

Ao mesmo tempo, os filmes dependem da associação de esforços de vários departamentos de criação, que começa pelo roteiro e passa pela interpretação dos atores, pela direção de arte, pela fotografia e segue até a pós-produção – e nem sempre esses elementos combinam com harmonia e perfeição. Com frequência, vemos nas telas resultados que representam ideias mal desenvolvidas ou executadas.

Por fim, é bom lembrar que gostos são pessoais e variados. O que pode agradar a um espectador talvez não faça o estilo de outro; e os executivos de Hollywood precisam calcular o potencial de cada produção (e quanto podem gastar nela) com base nos dados de alcance de seu público-alvo.

Porém, o mundo está sempre mudando, assim como os gostos do público, e os temas em debate na sociedade se modificam com o tempo. Talvez, a Warner não tivesse percebido como Matrix chegou no momento certo em que se debatia a cibercultura e o ciberespaço. Da mesma maneira, A Bela e a Fera, Corra! e Mulher-Maravilha, por mais diferentes que sejam, trazem questões sobre o feminismo e a representatividade de minorias sociais, assuntos em voga nos dias atuais.

Por isso, é interessante notar que, quando Hollywood acerta o timing de suas produções com os temas relevantes da contemporaneidade, é capaz de gerar verdadeiros fenômenos culturais, marcando anos e épocas através de suas criações. No entanto, ainda são muitas as variáveis que podem levar um título ao sucesso ou ao fracasso.

Como toda arte (e o cinema é, antes de tudo, uma arte), os filmes são uma expressão humana sobre a passagem do tempo. Contudo, como toda arte, o cinema está aberto às interpretações, portanto está longe de ser uma ciência exata.

Sobre Guilherme Haas
Formado em Comunicação Social pela UNISUL, Guilherme Haas é mestre em Comunicação e Estudos da Mídia pela Universidade Tuiuti do Paraná. Há 4 anos na NZN, Haas é editor e redator do site Minha Série, além de especialista em cinema, televisão e séries, sendo responsável pela cobertura de lançamentos e análises dos mercados.

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