Combinando uma premissa genérica com uma abordagem intrigante, Verónica oferece um bom entretenimento de horror

Verónica é o mais novo filme de Paco Plaza, idealizador do marcante [REC], o principal precursor da nova onda de filmes de horror found footage no final dos anos 2000. O clima investigativo, as boas atuações, os sustos bem aplicados e a trama misteriosa fizeram com que REC fosse sucesso de público e crítica, garantindo sequências e influenciando uma série de produções posteriores. Já em Verónica, temos o que parece uma premissa clichê, onde três amigas decidem brincar com um tabuleiro ouija e eventos sobrenaturais perseguem a protagonista, Verónica. No entanto, a forma como a trama se desenvolve e o cuidado na construção dos personagens, fazem dessa premissa um plano de fundo para a abordagem de temas como pressão familiar, amadurecimento e transtornos psicológicos.

Verónica (Sandra Escacena) é uma menina de 15 anos que tem 3 irmãos, duas meninas de cerca de 9 anos e um menino ainda mais novo. Sua mãe trabalha administrando um bar e fica praticamente o dia todo fora de casa, logo a protagonista além de cuidar dos irmãos pequenos está sempre ocupada com os afazeres de casa. Essa vida adolescente sobrecarregada de tarefas “adultas” é muito bem representada desde o início do longa. Ao mesmo tempo, a ausência do pai, já falecido, é uma das questões que também assombram a jovem. Ela então decide tentar entrar em contato com seu pai através de um tabuleiro ouija. A partir daí, Verónica é atormentada por visões de seres obscuros e do seu próprio pai agindo de forma agressiva. Como irmã mais velha ela desafia e enfrenta diversas vezes estas entidades macabras, visando proteger seus irmãos. O filme alterna de forma intrigante a frequência dessas aparições com a rotina de crescentes cobranças e pressões familiares que a menina sofre durante o dia. Até mesmo sua própria mãe, ao ficar sabendo de um deslize que Verónica teria cometido ao estar responsável pelos seus irmãos, age de forma autoritária, sem demonstrar compreensão, e diz que a adolescente precisa crescer. Ao mesmo tempo, as colegas de escola da protagonista acabam se afastando dela, alegando que Verónica só tem tempo para os irmãos. Todos esses aspectos da vida conturbada da adolescente são muito bem abordados no longa, e culminam numa reviravolta final que não é tão inesperada, porém  muito bem conduzida e aplicada.

A narrativa do filme assume um ritmo lento em diversos momentos, o que pode demandar paciência do espectador que não se envolveu o bastante com a história. No entanto, o longa é eficaz em manter tensão e ao mesmo tempo um certo ar de mistério sobre o que de fato está ocorrendo. O uso de simbologias e cenas alegóricas é um dos pontos altos da produção que contribuem para a atmosfera misteriosa da trama, dentre eles destacam-se os momentos em que aparece um grande quadro que retrata uma série de lobos caçando uma gazela e a belíssima e agoniante cena de canibalismo e amadurecimento forçado banhado a sangue. As atuações de Sandra Escacena e das crianças Bruna González, Claudia Placer e Iván Chavero, se destacam demonstrando bastante maturidade em cena e credibilidade aos seus personagens. Além disso, o design dos “seres sobrenaturais” é bem simples e eficaz, sendo muito bem inseridos em cenas que não apelam para os famigerados “jumpscares” para assustar o público. A trilha sonora também é outro ponto positivo do filme. Apesar de parecer fora do tom em alguns momentos, ela consegue transmitir bem o clima dos anos 90 com sucessos da banda espanhola Héroes del Silencio, além de contribuir para as cenas de tensão.

Todos os detalhes já mencionados colocam Verónica acima da média dos filmes com esse tipo de premissa. Porém, não se trata de uma produção extremamente inovadora, ou mesmo assustadora, apenas uma boa experiência com um filme de terror espanhol que vai além dos sustos e das pedantes cenas de possessões e exorcismos comuns em produções norte-americanas.

Verónica está disponível na Netflix.

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