COM ABORDAGEM OUSADA, PANTERA NEGRA TRAZ ARES DE NOVIDADE AO UNIVERSO DA MARVEL STUDIOS NOS CINEMAS, OFERECENDO UMA HISTÓRIA SÓLIDA E UM NOVO MUNDO FICTÍCIO ONDE VAMOS TER VONTADE DE HABITAR

Em Fruitvale Station (de 2013 baseado na história real de um jovem negro assassinado por policiais nos EUA), longa de estreia do diretor Ryan Coogler, há um momento onde o personagem vivido por Michael B. Jordan (chamado Oscar) precisa comprar um cartão de aniversário para sua mãe. “Encontre um que combine, nada de família branca feliz na capa“, ordena a irmã.

Com Pantera Negra, Coogler pede permissão à Marvel Studios para fazer seu discurso racial e politizado aplicado ao modelo blockbuster do cinema hollywoodiano. Não se trata, porém, de apenas um filme com atores e atrizes de pele negra salvando o dia. O resultado é algo sensacional e digno dos mais elogiosos adjetivos.

A trama de Pantera Negra se inicia logo após os eventos de Capitão América: Guerra Civil, onde T’Challa (Chadwick Boseman) perdeu seu pai, T’Chaka, rei da nação de Wakanda. De volta ao seu país e com a responsabilidade de assumir o trono, o Pantera Negra precisará lidar com as diversas demandas em sua vida para se provar digno, ao mesmo tempo em que processa seu luto. Enquanto conhecemos os detalhes da nação de Wakanda e seu preciosíssimo Vibranium, veremos o rei e herói em busca de justiça contra os atentados ao seu povo, auxiliado por Nakia (Lupita Nyong’o), As Dora Milaje (lideradas por Okoye na pele de Danai Gurira) e sua irmã Shuri (Letitia Wright).

Pantera Negra não é engraçado. Diferente de outros filmes da Marvel como Thor: Ragnarok, o principal diferencial aqui é a abordagem política bastante atual, tratando questões como refugiados e fechamento de fronteiras (para o ódio dos ultra-nacionalistas de plantão), num conflito geracional que mostra as dificuldades de se governar para todos de forma clara e sincera.

Assim como o rei de Wakanda precisa sempre se provar apto para o posto, Ryan Coogler se gabaritou para Pantera Negra com seus poucos trabalhos entregues. Em Creed (2015), por exemplo, o diretor conseguiu passar toda a emoção esperada para um filme envolvendo Rocky Balboa (entregue aqui de modo empático na mesma proporção), além de trabalhar muito bem cenas de luta com o boxe, inclusive lançando mão do tão complicado plano sequência, também usado no filme da Marvel durante a belíssima cena na boate. Outro ponto positivo na direção é a contextualização das cenas, como na cena inicial onde mostra as crianças jogando basquete, usando uma caixa improvisada como cesta.

A narrativa do filme muda de ritmo algumas vezes ao longo da sessão. Quando somos apresentados a Wakanda e suas riquezas, tudo é mais contemplativo e didático para o espectador não comer sapo em momento algum. Já para o andamento da trama, os desdobramentos são acelerados. Killmonger (Michael B. Jordan, presente em todos filmes de Ryan Coogler) é quem mais fica prejudicado nesse balaio. Mas seu desempenho como vilão não deixa de ser satisfatório, apesar de um certo exagero do ator ao declarar inspiração em personagens como Coringa de Heath Ledger e Magneto de Michael Fassbender. Está muito mais para o segundo (com sua posição extremista e trágica) do que para o primeiro. De Coringa maluco mesmo podemos destacar Ulisses Klaue (Andy Serkis), que atua mais como um complemento do roteiro ao ser bem inserido. O personagem já havia aparecido anteriormente em Vingadores: Era de Ultron.

Houve alguns relatos sobre o CGI do filme estar fraco, mas a versão em iMAX na qual assistimos não apresentou tais problemas. Pelo contrário, Pantera Negra é um espetáculo visual.

O elenco é uma carteirada e tanto da Marvel Studios. Se lá no início com Homem de Ferro a produtora precisava apostar em figuras mais baratas para tocar seus projetos, hoje são ostentados com muito orgulho nomes como os supracitados (Lupita, Chadwick, Jordan, Danai Gurira), além de outros como Daniel Kaluuya e Forest Whitaker. Todos com sua importância dosada na trama, que aborda muito bem as tribos que compõem Wakanda, tornando-a um espaço bastante iconográfico e um personagem à parte. Contribui bastante para isso as Dora Milaje, guarda de elite do rei, roubando as atenções em diversos momentos.

Por ter sido introduzido num espaço bastante habitado por heróis da Marvel que foi Guerra Civil, Pantera Negra passa a impressão de que em momento algum precisa se alimentar desse mesmo universo expandido para garantir suas ideias ou mesmo aumentar sua qualidade (algo feito em Homem-Aranha: De Volta ao Lar e Homem-Formiga, por exemplo). Só temos algo próximo disso quando o lendário Stan Lee aparece em tela, além de uma das cenas pós-créditos (são duas no total).

Ao harmonizar tão bem todos os interesses envolvidos, Coogler se coloca como uma figura importantíssima no meio. Seja para divertir, emocionar, dar lugar de voz e se posicionar, Pantera Negra é o cartão de aniversário que Oscar poderia ter encontrado caso vivêssemos num mundo menos hostil. Poucas vezes vemos um filme dialogar tão bem com o mundo e ao mesmo tempo intimamente com as pessoas que o habitam.

Com mil e uma inspirações (até 007 entrou nessa conta), Pantera Negra queria ser muita coisa antes de chegar aos cinemas. E conseguiu.

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