Esqueça toda a sua concepção de filmes de super-heróis. Apesar de ser baseado em um personagem das HQ’s, e possuir claras referências ao material original, Logan não segue nenhuma regra estabelecida por seus antecessores. Ainda que existam ecos da franquia X-Men, o longa parece habitar um universo próprio.

O que temos aqui é a brutal realidade de um mundo onde o heroísmo foi extinto. E como aqueles que já viveram dias de glória são perseguidos pelas consequências de seus atos passados. É nesse cenário ausente de esperança que Logan (Hugh Jackman) e Charles Xavier (Patrick Stewart) estão inseridos. Homens que carregam em seus corpos, mentes e espíritos as marcas do alto preço cobrado pelo tempo. Na companhia de Calliban (Stephen Merchant), outro fóssil do passado, eles buscam sobreviver dia após dia.

A direção de James Mangold segue por dois caminhos bastante perceptíveis: a brutalidade e a redenção. Em determinada cena, Charles está assistindo alguns trechos de Os Brutos Também Amam e essa é a metáfora perfeita para o filme. Logan, assim como o protagonista do faroeste citado, levou uma vida repleta de violência e busca algum tipo de paz. Mas precisa abandonar seus planos em nome de um ato necessário.

Logan é um homem praticamente destruído, com dificuldades para ler, caminhar e até mesmo utilizar suas margas registradas: as garras de adamantium. Mas toda a raiva, tristeza e ódio acumulados ao longo dos anos o transformaram em alguém que não tem nada a perder. Tanto que pensa seriamente em encerrar o sofrimento de uma vez por todas.

Hugh Jackman explora novos caminhos com o personagem que faz parte de sua vida. A figura indestrutível de anos atrás agora é surpreendentemente frágil, que apanha até de bandidos comuns. O peso das lutas deixa marcas profundas, fazendo do sangue um elemento recorrente. Amor, compaixão, ódio, tristeza, arrependimento e muitos outros sentimentos moldam um Logan destinado a tragédia. É uma das melhores atuações de sua longa carreira.

Patrick Stewart está ainda mais frágil que seu fiel companheiro. Outrora a maior mente do mundo, agora vive controlada por remédios que o impedem de colocar aqueles que o cercam em perigo. A voz trêmula e o aspecto doentio destroem o personagem imponente de produções anteriores. Existe uma relação de paternidade aqui, construída ao longos dos anos e que rende a maioria das melhores cenas do longa. É de cortar o coração.

Mas todo o destaque vai para Dafne Keen. Com um atuação pautada na expressão, ela consegue impressionar com olhares perfurantes. Sua fúria e habilidades de combate fazem dela uma arma tão perigosa quanto Logan foi no passado. Porém, também existe espaço para o sentimentalismo. Não estamos diante de uma personagem genérica. As cenas de ação favorecem seu show particular, tornando crível que ela consiga derrotar homens muito maiores e pesados. Um talento nato.

Donald Pierce (Boyd Holbrook) e seus Carniceiros, assim como o Dr. Zander Rice (Richard E. Grant), não entram no grupo dos grandes vilões do cinema. Mas possuem motivações totalmente condizentes com a trama, além de representarem certo perigo. É curioso quando Pierce afirma ser o mocinho disso tudo, como se suas ações realmente representassem o bem para a sociedade.

Outro trunfo de Logan reside na forma como James Mangold utilizou a censura elevada. São cenas fortes, com mutilações e mortes impactantes. Porém, nada gratuito. Apenas o resultado de uma luta entre uma pessoa normal e alguém com garras de adamantium. Faz parte da construção desses personagens, assim como os palavrões. Pontos para a Fox, que entendeu a mensagem passado por Deadpool.

O diretor, aliás, sempre deixou claro que não veríamos um simples filme de super-herói. E foi extremamente sincero nisso. Apesar da sanguinolência, também não é um genérico representante da ação. É algo que transita entre variados gêneros, absorvendo o melhor de cada um e desenvolvendo sua própria identidade.

Com uma sensibilidade que se destaca da tragédia, Logan funciona como a carta de despedida de Hugh Jackman. Ator e personagem envelheceram juntos, o que fica claro aqui. Mesmo não atuando mais como o super-herói clássico, ainda é capaz de cometer o maior dos sacrifícios. Trata-se de legado e agora o Wolverine já passou sua chama para a próxima geração. Que eles cuidem bem dela.

Comentários