Um aglomerado de clichês e sustos desajustados, que consegue ser ainda pior do que os filmes genéricos de exorcismo pelo roteiro fraco e superficial que apela repetidamente ao moralismo puritano.

O trailer de A Crucificação – Demônios São Reais me deixou instigado desde fevereiro deste ano, quando foi lançado. Já o filme estreou apenas agora em outubro nos EUA e trata-se de mais uma história de exorcismo, que é um tema extremamente saturado nos dias de hoje. Mesmo assim, o trailer me passou um ar interessante de mistério, por se tratar de um terror investigativo sobre um suposto exorcismo que deu errado, além de se passar na curiosa Romênia e indicar um certo gore que aprecio bastante quando bem aplicado. Mas prestando mais atenção achei estranho o exagerado número de jumpscares ainda no trailer, e logo descobri que se tratava de uma produção de Peter Safran (Invocação do mal 1 e 2, Anabelle 1 e 2), e roteirizada pelos irmãos Chad Hayes e Carey Hayes (Invocação do Mal 1 e 2), que são os principais disseminadores de jumpscares nas grandes produções de terror atuais.

A história, supostamente baseada em fatos reais, é protagonizada por uma jornalista (Sophie Cookson) que vai investigar um caso de exorcismo interrompido de uma freira numa igreja na Romênia. O ritual não chegou a ser concluído pela intervenção de um bispo que estava em desacordo com a prática e resultou na morte da freira e na prisão do padre exorcista. Por essa premissa eu até achei comparável ao excelente Exorcismo de Emily Rose (2005), pelo clima de terror investigativo que questionava a veracidade da possessão demoníaca, deixando o espectador livre para fazer suas interpretações. Foi um grave engano.

O filme até começa de forma interessante, com um belo plano de sequência mostrando a parte rural da cidade romena de Bucareste de cima até adentrar na igreja e mostrar a cena do exorcismo da freira. Os primeiros 30 minutos ainda seguem razoáveis, não há exagero de sustos e alguns elementos aparentemente desconexos da história são apresentados para contribuir com o mistério do que realmente aconteceu naquela igreja. Dentre esses elementos há a presença de um curioso festival pagão na cidade, um garoto esquisito que persegue a protagonista e o desacordo dentro da própria comunidade religiosa sobre a prática do exorcismo, já que o bispo que impediu o ritual acreditava que a freira sofria de problemas psicológicos e não que ela estava de fato possuída. No entanto, como o título em português indica, todos esses elementos que poderiam ter sido ricamente trabalhados são deixados de lado, e tudo se resume a banal conclusão de que os demônios são reais.

<<SPOILERS A PARTIR DAQUI>>

Após o primeiro terço do longa, as coisas que já não estavam tão boas, desandam desastrosamente para uma história que evoca o moralismo religioso deixando uma série de jumpscares pelo caminho. A protagonista, que supostamente é ateia, conhece um jovem padre (Corneliu Ulici) da igreja onde ocorreu o exorcismo. Esse padre galã se mostra o personagem mais raso e chato do longa, ele basicamente tenta catequizar a protagonista em todo santo diálogo que eles tem e tenta convencê-la a todo custo de que demônios são reais. Após um desses diálogos, ao saírem de um estabelecimento, está ocorrendo o interessante festival pagão na cidade e o filme acaba fazendo a associação tendenciosa de certas máscaras do festival a algo maligno e até mesmo demoníaco, através de enquadramentos sugestivos e uma trilha sonora macabra. Se o festival ou mesmo o paganismo fossem melhores abordados posteriormente na trama tudo bem, mas isso não ocorre, e acaba sendo só uma associação gratuita e distorcida de um festival pagão e suas máscaras “bizarras” a entidades malignas.

O moralismo religioso fica ainda mais evidente quando descobrimos o motivo da possessão da freira e como isso é trabalhado no filme. Basicamente, ela foi possuída porque fez sexo com um rapaz durante uma viagem à Alemanha, esse pecado a deixou impura e totalmente vulnerável aos demônios. Essa associação do demônio ao sexo e a sexualidade é ressaltada ainda na única cena de “nudez” do filme, em que a freira (vítima do demônio) parece estar se masturbando em sua cama e no momento em que sua colega de quarto retira o lençol que a cobre, há centenas de toscas aranhas de computação gráfica em sua região genital, indicando a impureza que ali habita. Enquanto isso, a jornalista, que já havia demonstrado interesse sexual pelo jovem padre antes de saber que ele era padre, começa a ter sonhos eróticos com ele e, ao que parece, isso também a torna vulnerável ao demônio que atacou a freira e que se descobre ainda estar à solta na cidade pelo fato de o exorcismo anterior não ter sido concluído.

Depois dessas sutis associações entre paganismo e desejo sexual a impureza e demônios, o jovem padre explica para a protagonista sobre rituais de exorcismo com todo o clichê presente em diversos filmes do tema e diz que por ela não ter fé, está vulnerável. Ao mesmo tempo, ele acredita que ela foi escolhida por Deus para ajudar a deter o demônio que assombra o local, e como sempre, diz que ela tem que ter fé para isso. O ateísmo dela é justificado por um drama genérico envolvendo sua mãe que morreu de câncer, mas a mesma história faz ela voltar a crer em Deus no final do filme.  Toda essa trama ainda é permeada por flashbacks e cenas que não contribuem em praticamente nada para a história e na maioria das vezes funcionam muito mais como deixas para sustos baratos e desconexos.

Dentre essas cenas destaca-se o momento em que a jornalista está pesquisando o nome do demônio no computador, e ao entrar num site, no meio da leitura aparece uma figura bizarra na tela com um som estridente, que se revela ser uma pegadinha do próprio site. Essa cena não contribui em nada para sabermos mais sobre a entidade maligna pois a jornalista desiste da pesquisa logo depois. No final das contas, a obviedade extrema se materializa e a protagonista é possuída numa cena extremamente genérica para depois ser exorcizada pelo padre galã. Ela finalmente demonstra ter fé, é salva e ainda diz que viu a mãe falecida no reino dos céus. Na cena do exorcismo o único elemento que difere do genérico é a constante “chuva” que ocorre dentro do galpão que a moça se encontra. Por algum motivo que não é explicado, o demônio do filme está associado a água e isso garante alguns poucos enquadramentos bonitos durante o ritual com efeitos interessantes em câmera lenta.

Para não dizer que não há pontos positivos no filme, a direção do francês Xavier Gens tem ótimos momentos. Dentre eles destacam-se a realização de belos planos sequência,  alguns aplicados de forma intrigante para introduzir flashbacks. Esse tipo de técnica é raro em produções de terror atuais e esses poucos momentos são tão interessantes que até destoam da qualidade do restante do filme. As atuações em geral são razoáveis e não incomodam tanto, apesar da protagonista permanecer com a mesma expressão durante a maior parte do longa.

A mensagem que o filme parece querer passar após todo esse martírio é que demônios são reais, ter desejos sexuais envolvendo padres e freiras ou apenas ser ateu te torna impuro e vulnerável, mas para vencer tudo isso basta aceitar para si a fé cristã. Apesar da premissa da investigação de um exorcismo interrompido parecer intrigante, A Crucificação – Demônios São Reais consegue ser ainda pior do que a maioria dos longas genéricos de exorcismo cheios de sustos, principalmente por não tentar se arriscar e ainda apelar ao moralismo cristão de forma superficial e repetitiva, limitando ainda mais o seu fraco roteiro.

A Crucificação – Demônios São Reais tem estréia prevista para o dia 7 de dezembro nos cinemas brasileiros.

Publicidade
Loading...

Comentários