Qual o peso de um legado? É possível dar novos rumos para algo que já parece completamente definido? E como fazer da nostalgia uma aliada na hora de contar novas histórias? Essas são algumas das questões que os novos filmes de Star Wars precisaram encarar desde que O Despertar da Força foi anunciado. É inegável que o longa comandado por J.J. Abrams bebe demasiadamente da fonte de George Lucas, sendo até mais respeitoso do que o necessário. Porém, Star Wars: Os Últimos Jedi surge para mostrar que um pouco de rebeldia não faz mal e que linhas tortas também levam ao caminho certo.

O longa comandado por Rian Johnson (Looper) é como um furacão que abala as estruturas que fizeram de Star Wars uma das maiores franquias do cinema, dominando com maestria o terreno onde está inserido. Essa impetuosidade transforma Os Últimos Jedi em uma aventura habitada por personagens complexos, que evoluem suas personalidades na medida em que entendem que bem e mal compartilham os mesmos tons de cinza. Um aprendizado crucial para que o espectador mergulhe de cabeça na proposta do diretor. E um alívio para os fãs, principalmente após 7 longas que seguem a mesma fórmula.

Após os eventos de O Despertar da Força, a Resistência comandada pela General Leia ( Carrie Fisher) está sendo caçada e dizimada pela Primeira Ordem. A esperança de salvação está nas mãos de Rey (Daisy Ridley) que partiu em busca de treinamento com Luke Skywalker (Mark Hamill). A figura do antigo mestre Jedi é crucial para manter acesa a chama do combate contra o Líder Supremo Snoke (Andy Serkis). Enquanto isso, Poe (Oscar Isaac), Finn (John Boyega) e Rose (Kelly Marie Tran) traçam uma estratégia que pode levá-los ao triunfo derradeiro. Apesar da premissa simples, Star Wars: Os Últimos Jedi nunca se permite cair no comum, mantendo todas as peças em movimento no tabuleiro. Pode parecer confuso em determinados momentos, mas as coisas se encaixam na hora certa.

Luke Skywalker é a esperança da Resistência em Star Wars: Os Últimos Jedi. Divulgação: Disney.

O esmero técnico e visual de Rian Johnson transforma Os Últimos Jedi num dos filmes mais bonitos de toda a franquia. Tudo combinado com ótimas cenas de ação, que exploram todos os ambientes em que ocorrem. O diretor abusa de planos abertos, que atiçam os sentidos do espectador, garantindo assim uma simbiose perfeita com o público. Outro detalhe importante é que Johnson evita que seu longa seja apenas uma ponte entre o início e o final da nova saga. Se J.J. Abrams fez sua releitura de Uma Nova Esperança, temos aqui um filme que não se permite ser definido por rótulos. Claro que isso não impede que várias sementes para o futuro sejam plantadas. Futuro esse que agora não passa de uma enorme incógnita.

Porém, os atrevimentos do roteiro – que não são poucos – só funcionam graças ao poder do elenco. Temas como medo, redenção, esperança, fúria, arrependimento, amor e compromisso são destrinchados por todos os núcleos do filme. Desse modo, Star Wars: Os Últimos Jedi transforma-se num interessante estudo de personagens. Sem contar as quebras de paradigmas, especialmente na jornada do herói e na relação sagrada entre Mestre-Discípulo.

Mas tudo isso não significa que Os Últimos Jedi é um grande drama intimista. Muito pelo contrário. O filme sabe o momento certo de entregar cenas de ação espetaculares, do tipo que arrancam o espectador da cadeira. Assim como momentos de tensão, daqueles que causam desconforto. Tudo perfeitamente encaixado.

Finn reencontra a Capitã Phasma em cena de Star Wars: Os Últimos Jedi. Divulgação: Disney.

Porém, apesar das incontáveis qualidades, o filme não está livre de defeitos. O maior deles talvez seja a brusca queda de ritmo entre os atos, principalmente no segundo. É um raro caso onde final é perfeitamente executado, mesmo com todos os problemas no meio da jornada. O humor também sofre com a questão do ritmo, sendo utilizado onde não deveria. E o aproveitamento patético de alguns personagens chega a decepcionar, mas passa longe de destruir a experiência.

Star Wars: Os Últimos Jedi arrisca muito mais que seus antecessores, ainda que consiga conservar o espírito de magia e aventura que domina toda a franquia. É emocionante, intrigante, divertido, audacioso e perfeitamente consciente de sua missão dentro dessa nova trilogia. Um novo capítulo da história da cultura pop foi escrito e que bom que fazemos parte dele.

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