Nos idos de 2013, um curta metragem no youtube fez bastante barulho e chamou muita atenção. O seu nome era Cargo e falava sobre um pai cuidando de um bebê em um apocalipse zumbi. O curta fez tanto sucesso que em 2018 temos um longa metragem produzido pela Netflix inspirado na obra, agora com um plot mais complexo e protagonizado por Martin Freeman. Confira nossa crítica sem spoilers.

Cargo conta a história de Andy (Martin Freeman), um pai que precisa cuidar da sua esposa e sua filha bebê em um mundo pós-apocalíptico tomado por zumbis, mais precisamente no meio dos ermos da Austrália. Andy vai ter contato com nativos e, como em todo bom filme de zumbi, enfrentar tanto os vivos quanto os mortos em um mundo sem esperança.

Por mais que o gênero de zumbis já esteja bastante saturado, Cargo consegue trazer algumas ideias legais, não só inspiradas no conto original mas também evoluindo essa história deixando-a com mais tons de cinza. Uma das principais ideias do filme é já colocar você no meio do apocalipse zumbi, sem perder tempo com explicações ou ciência demais. Dá para entender que essa situação já existe a alguns bons anos e o governo meio que já desistiu de achar uma cura, entregando inclusive ferramentas para a população se matar caso seja mordida, para que a doença não se espalhe.

É difícil falar do filme sem dar spoiler mas se você já viu o curta já sabe mais ou menos qual o conflito principal do longa. Juntamente com Andy, vamos viajando por essa Austrália devastada e vemos como cada ser humano aborda esse mundo. Alguns de forma mais agressiva e aproveitadora, outros com esperança e alguns que perderam totalmente a fé em algo melhor. Esperança, inclusive, é o tema central do filme. O longa é uma bomba relógio que vai evoluindo e cada minuto que passa vai te deixando mais desesperançoso.

É nesse quesito da montagem que acredito que está o principal erro do filme. Apesar de ter em seu roteiro o recurso da bomba relógio ou do problema que vai escalonando, a montagem do filme não consegue passar isso e essa angústia se perde em vários momentos do longa. Os diretores iniciantes Ben Howling, Yolanda Ramke trabalham bem a atmosfera do filme e o sentimento de tristeza constante, mas falham em entregar o sentimento de trhiller que eu acho que caberia melhor nesse roteiro. Além disso as cenas de ação ou até mesmo de diálogo são confusas e mal montadas, passando um sentimento artificial.

O sentimento que fica é que o filme tinha boas ideias mas falhou um pouco na execução e no ritmo. Acredito que temos espaço para filmes mais intimistas e introspectivos, o longa acerta nesses momentos em algumas cenas. Mas acredito que faltou um sentimento de mais perigo e imediatismo. Talvez a minha percepção foi influenciada por já saber como o filme termina pelo curta, mas acredito que uma mão mais firme da direção teria resolvido isso.

No que eu tenho a reclamar da direção eu só tenho elogios a Martin Freeman, o ator consegue entregar emoções muito complexas e um personagem com tons de cinza muito bem interessante. O protagonista do filme não é um herói, apesar de fazer atos heroicos. O seu objetivo principal é proteger sua filha, mas em alguns momentos ele acaba salvando outras pessoas, ou pelo menos tentando. A relação entre pai e filha aqui lembra muito o jogo do Walking Dead da Telltale, ponto positivo pro roteiro.

Cargo é um filme que expande a obra original mas no final eu acho que prefiro mais o curta do que esse longa aqui. Existem temas interessantíssimos como a falta de esperança e o racismo, bem como o enaltecimento da cultura dos nativos da Austrália, mas falta no filme um imediatismo e um sentimento de bomba-relógio que caberia bem nesse roteiro. Martin Freeman tem um enorme tempo de tela e consegue sempre entregar uma ótima performance. O longa, apesar de usar vários clichês do mundo dos zumbis, ainda consegue trazer novidades para o gênero, colocando os monstros apenas como plano de fundo para contar uma história sobre paternidade.

Caso tenha curiosidade, pode conferir o curta original aqui:

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