Exclusivo da Netflix, Documentário de Ava DuVernay rompe barreiras ao provar que a escravidão ainda não acabou

A história estadunidense está intrinsecamente relacionada ao racismo, assim como tratar de questões internas da maior potência mundial sem olhar para seus problemas carcerários, onde sua população cresceu vertiginosamente desde os anos 1970, é também um exercício leviano.

A Décima Terceira Emenda à Constituição dos Estados Unidos aboliu oficialmente e continua a proibir em território americano a escravatura e a servidão involuntária, essa última exceto como punição por um crime.

Dirigido por Ava DuVernay (também diretora de Selma: Uma Luta Pela Igualdade), A 13ª Emenda talvez não funcione para os mais céticos, pessoas ortodoxas que não conseguem identificar o racismo na sociedade como um todo, seguindo a velha linha de pensamento da meritocracia: se foram presos, é porque cometeram algum crime. Se não têm recursos, é porque não trabalharam o suficiente.

É compreensível que as pessoas cheguem a essas conclusões (por mais absurdas que possam e parecem ser) enquanto não houver o devido debate.

cena de a 13ª emenda, rapaz negro sendo detido de forma truculenta

O que Ava propõe com A 13ª Emenda não é exatamente mudar a forma de pensar desse tipo de individuo, mas oferecer uma perspectiva absolutamente racional e sistemática para o devido entendimento da situação carcerária dos EUA e como isso passa pelo fim da antiga escravidão, o aparelhamento gradativo da polícia conforme a chegada de novos presidentes (sustentado pela política de guerra às drogas), e as milhares de vidas destruídas direta ou indiretamente por consequência disso. No processo, também é abordado o crucial papel dos meios de comunicação seja para propagar uma imagem negativa sobre pessoas negras e movimentos sociais (principalmente através da TV e propaganda) ou mesmo a devida promoção e conscientização das pessoas ao redor com o uso da internet.

Após o fim da escravidão, havia uma grande necessidade de mão de obra barata nos EUA, então a solução na época foi acusar parte dessas pessoas recém libertas de crimes banais como vadiagem, levando-as assim sob custódia para trabalhar. O que ocorre hoje é que a gigantesca população presidiária do país sustenta toda uma estrutura econômica opressora para a população negra de forma majoritária; seja com empresas alimentícias que abrem mão da higiene, telefônicas que lucram absurdos com ligações inflacionadas e até mesmo atendimento médico negligente vindo de empresas que conseguiram um vantajoso contrato para tanto.

Cena de a 13ª emenda, rapaz negro segurando cartaz "Eu sou o próximo?" em protesto.

Discursos como “tem que colocar esses vagabundos para trabalhar” ganham um novo contexto depois desse entendimento. É plausível, sim, exigir que criminosos trabalhem como parte de sua dívida com a sociedade, mas ao mesmo tempo é assustador pensar em como esse argumento pode sustentar situações de abuso, frente a pessoas invisíveis para o mundo. E quem vai olhar e se importar com elas? Vivemos num contexto onde não nos preocupamos com isso, o que em partes explica o motivo de nossos antepassados terem tolerado a velha escravidão por tanto tempo.

Vale ressaltar aqui o ótimo trabalho da Netflix em produzir conteúdo representativo para seus assinantes. Além de A 13ª Emenda como documentário, a rede de streaming também é responsável por The Get Down (série musical), Luke Cage (parceria com a Marvel) e Sonhos Imperiais (filme recém chegado e estrelado por John Boyega). Todos com forte apelo e identificação à sua maneira.

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